terça-feira, 27 de março de 2018

NÃO É QUESTÃO DE PONTO DE VISTA >> Clara Braga

Mais um ano que acompanho o festival Lollapalooza do sofá da minha casa, e esse vem sendo para mim o melhor lugar de todos. Todos os anos observo como os artistas ficam emocionados de estarem em um festival tão grande e acabam fazendo discursos sobre a paz, o respeito, o amor ao próximo e outros tópicos que seguem a mesma linha de raciocínio. Não sei se todos os artistas, principalmente os internacionais, acompanham a situação política do nosso país, mas esse ano não foi diferente, ouvimos muitos discursos de pessoas que estão só querendo um mundo melhor para se viver, será que é pedir muito? O interessante é a reação do público, até mesmo aqueles que nem estão no festival para ver aquele artista específico se emocionam com a fala e param o que estão fazendo para aplaudir e mostrar que concordam, o mundo precisa mesmo ser um lugar melhor, é o que todos desejam.

Alguns shows eu acabei não acompanhando, então, no dia seguinte, liguei no jornal para acompanhar as notícias relacionadas ao festival e acabei descobrindo um movimento que estão fazendo em um canal televisivo com o seguinte tema: o Brasil que eu quero! As pessoas gravam vídeos delas em algum ponto turístico de sua cidade e falam o que elas desejam para o Brasil, ou seja, basicamente se transformam nos artistas do Lollapalooza por alguns poucos minutos. Não fui atrás para entender melhor sobre esse movimento, mas achei interessante notar nos poucos depoimentos que acompanhei durante o jornal que o desejo das pessoas é quase unânime: um Brasil justo, honesto e com educação e saúde para todos.

Vendo esses discursos, tanto os do show quanto os vídeos do jornal, uma dúvida que parecia pertinente me ocorreu: se todas as pessoas querem um Brasil justo, honesto, apoiam os artistas que se mostram ativos na busca por um país melhor, que dizem estar fazendo sua parte, onde estamos errando que não conseguimos alcançar esse objetivo já que o objetivo é o mesmo para todo mundo?

Não precisou muito tempo, menos de um dia acompanhando uma rede social para ser mais exata, para eu entender tudo. As pessoas ainda acham que para alcançarem um mesmo objetivo todos devem seguir a estrada de tijolos amarelos. Não importa quantas cores de estrada existam, não importa se para uns é mais confortável pegar o caminho mais longo um pouco, ou se outros não gostam muito de amarelo e preferem azul, o que importa é que ou você escolhe vir comigo na estrada de tijolos amarelos e ser meu amigo ou então seremos inimigos para sempre, mesmo que no final a gente chegue juntos na honestidade desejada. Porque? Não sei, só sei que é assim, ou você está comigo ou está contra mim, mesmo que a gente de fato não discorde em nada.

Será tão difícil entender que não existe honestidade sem tolerância ou justiça sem respeito? Ou melhor, será que é difícil entender que tolerância e respeito não são questões de ponto de vista? Não adianta, o mundo inteiro pode desejar a mesma coisa, enquanto o egoísmo for a única palavra que todos entendem, continuaremos gravando vídeos só para termos nossos poucos minutos de fama.



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