sexta-feira, 9 de março de 2018

A HORA DOS MORTOS 2a PARTE >> Zoraya Cesar

A hora dos mortos - parte 1 - Lucrécio Lucas foi acordado, às três horas da manhã, a hora dos mortos, pela alma torturada de sua primeira mestra, a feiticeira Kitsune Sra. Majo. Que lhe pedia ajuda para escapar de Waru, o Labirinto do Terror. Lucrécio Lucas jamais se negara a cumprir uma missão. Não seria aquela que ele negaria. Mesmo que lhe custasse a vida. E a alma.

Lucrécio não voltou a dormir. Precisava desvendar o quanto antes aquele tríplice mistério: como a alma da Sra. Majo fora aprisionada; como conseguira entrar em contato; e como ajudá-la a escapar de Waru, o Labirinto do Terror.

Em pouco tempo encontrou sua primeira resposta: o demônio aprisionava as almas das feiticeiras Kitsune assim que saíam de seus corpos. Ainda fracas pelo choque da desencarnação, não tinham como se defender. 

Waru é um demônio e, ao mesmo tempo, um lugar – o Labirinto do Terror. Ali, as almas sofrem tormentos tão dolorosos e cruéis, que é como se estivessem ainda presas ao corpo. As chances de escapar são ínfimas. Apenas a cada dois mil anos abre-se um portal por onde as almas prisioneiras saem para falar com os vivos - e voltar ao seu tormento. É também o único momento em que Waru materializa-se no mundo dos humanos. 

É isso!, exultou Lucrécio, é isso! A Sra. Majo, solerte como ela só, veio me avisar que o portal está aberto. Somente no mundo dos vivos Waru pode ser destruído. Essa é a minha Missão, desafiar o monstro e matá-lo. 

Voltou aos livros. Havia apenas um relato de quem desafiara o monstro e sobrevivera, o samurai-feiticeiro Majishan Senchi.

Depois de estudar cuidadosamente a estratégia usada por Majishan, ligou para a Ordem e pediu a entrega imediata de alguns artefatos: uma katana Masamune – cuja fantástica lâmina nunca errava o alvo e deixava uma ferida que jamais cicatrizava; um espelho Yata no Kagami, da deusa do Sol e do Universo, a doce Amaterasu; e um sino Kongo, cuja sonoridade destruía demônios.

18 horas. Fechou os livros, rezou uma Ave Maria e dormiu. Quando acordou, sua encomenda já estava à porta. Chegara a hora de começar o ritual.

Lucrécio Lucas combatia as Trevas há muito tempo. Corajoso. Experiente. E, no momento, apavorado. Havia uma grande probabilidade de ele morrer e ter sua alma aprisionada. Suas mãos tremiam levemente e ele não respirava direito. 

Parou tudo. Calma. Não é a primeira vez que desafio o Mal. Além disso, pensou, a morte é para os que estão vivos. Aceitei essa Missão e vou cumpri-la. 

Com as mãos e o coração firmes, a mente limpa, deu prosseguimento ao ritual - dessa vez, sem falhas ou hesitações. Invocou, finalmente, a presença de Waru.

À hora dos mortos, Waru surgiu em sua forma física, abjeta e fétida, voraz, formidável em sua força e malignidade. Lucrécio Lucas desferiu um golpe com a katana Masamune. O monstro rugiu e, de seu corpo, jorraram gotas ácidas que, caindo em Lucrécio, fizeram-no urrar e cambalear de dor, a carne queimada e corroída.

Ainda assim, feriu novamente o demônio, que, em fúria assassina, lançou uma violenta onda de energia que dobrou Lucrécio ao meio, torcendo-lhe os músculos de tal forma, que seu braço esquerdo quedou-se, inerte e fraturado. A luta só não terminou ali, a desfavor de Lucrécio, porque parte da energia foi refletida pelo espelho, atingindo Waru e enfraquecendo-o.  

Quase desmaiando de dor, Lucrécio concentrou-se em continuar acordado e desafiante; o plano ainda não chegara ao fim. 

Do monstro saíram afiadíssimos estiletes, que cortaram o corpo de Lucrécio como minúsculas giletes voadoras. O ritual de proteção e o espelho salvaram-no de um mal maior, mas ele  estava chegando ao fim de suas forças. 

Vacilou. Suas pernas dobraram. Ele caiu... 

Impaciente e ferido, Waru aproveitou esse momento para acabar de vez com o estúpido humano. Abandonando a forma física, seu espírito tentou entrar no corpo de Lucrécio e, assim, matá-lo e possuir sua alma.

Clac. Fechou-se a armadilha. A fiel katana destruiu a forma corpórea no demônio – que não teria para onde voltar. E as almas torturadas das feiticeiras Kitsune – a Sra. Majo entre elas –, escondidas em Lucrécio, impediram que ele ocupasse o corpo do humano.

À deriva, e cercado pelas almas daquelas mulheres - poderosas quando vivas e cheias de ira em sua morte – Waru não resistiu aos encantamentos de banimento tão possantes e ancestrais quanto o som da criação, nem à vibração do sino da destruição, percutido pela mão íntegra de um Lucrécio Lucas quase exangue, mas ainda lúcido. O demônio dissolveu-se no éter. (Naturalmente, em algum momento, um novo Waru seria criado; perseguiria feiticeiras Kitsune... e assim seria até que todos fossem chamados ao Último Fim. Mas isso é outra história).

A flor de ervilha doce.
Um símbolo do adeus. Uma mensagem de despedida.
A Sra. Majo deixou  um recado inequívoco
para seu aluno: 'deixe que os mortos
enterrem seus mortos'.
Lucrécio não conseguia se mover, mal respirava, tudo lhe doía. Sangrava profusa e ininterruptamente. Percebeu que as almas das Feiticeiras, livres, seguiam seus caminhos. Não, pensou, não quero morrer sozinho... Foi então que sentiu a presença da alma da Sra. Majo. Confortado, Lucrécio Lucas deixou-se cair na inconsciência do sono profundo, do qual não esperava despertar. 

Acordou alguns dias depois, no hospital especial da Ordem, às três da manhã, ainda agoniado. Lucrécio Lucas só teria sossego quando descobrisse que a Sra. Majo agora descansava em paz. 

Virou-se para levantar, e viu, ao lado da maca, uma delicada flor de ervilha doce. Sorriu. Sim. A Sra. Majo descansava em paz. Ele poderia ficar sossegado.


Outras aventuras de Lucrécio Lucas

Os Caçadores - um dia da caça, outro do caçador

I Maledetti - todos malditos: vítimas e algozes

O Gato - parte 1 - nem durante as férias ele descansa

O Gato - parte 2 - mas a vida e a morte são assim mesmo

Caçadas noite adentro - nem tudo é o que parece; aliás, nada é o que parece

Viúva Negra - nem sempre o mau se dá mal

A Amante - a origem do nome de Lucrécio Lucas

A hora dos mortos - parte 1 - quando uma Alma pede ajuda

'Deixe que os mortos enterrem seus mortos" - MT 8,22

Foto Under the sun seeds in Pinterest
https://br.pinterest.com/underthesunseed/


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4 comentários:

Marcio disse...

Meu filho vê uns desenhos animados japoneses e eu não entendo nada daquilo.
O texto poderia ser o roteiro de um daqueles desenhos.
Também não deu para entender muito.
O caboclo escrivinhadô que eu incorporo antes de fazer comentários cretinos deve estar preso no Waru.
Seu Lucrécio, poderia avisar ao caboclo para sair do labirinto?

Ana Luzia disse...

Lucrecio Lucas, EU TE AMO! Vulnerável, mas corajoso. Gentil e forte! Deixa que eu cuido de sua convalescença, meu caro, quero vc pronto pra outra!

Maravilhoso! Totalmente imagético! Instigante e incrível como tudo que vc escreve, Zô.

Unknown disse...

Concordo com o Marcio... não deu pra entender muito kkk São muitos nomes, muitos demônios, muitas feiticeiras e feitiços... Mas tudo com riqueza de detalhes... Eu fico meio tonta de tanto detalhe, às vezes preciso ir e voltar pra ver se entendo alguma coisa hahaha Acho que estou ficando velha. Mas você, Zozô, tem uma alma adolescente que não te larga nunca! rs

Anônimo disse...

Adoro esse herói , muuuito melhor q o depressivo do Batman, muuuito melhor q os poderes do super homem , muuuuuito melhor q anti-sociql do grosso do Hulk; esse sim, Lucrécio Lucas é o cara!