quinta-feira, 8 de outubro de 2015

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS >> Analu Faria

"Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso."
(Manoel de Barros)

Defendo fortemente a simplicidade. Ainda assim, minha visão é turva, turvíssima, para as coisas boas da vida.

Só agora comecei a fazer o que realmente gosto — escrever e estudar texto. Antes eu quis coisas "grandes" — fiz Direito, tentei carreira diplomática — e falhei miseravelmente nas duas (graças a Deus?). "Mexer com Letras" dava pouco prestígio, pagava pouco e não fazia sucesso com a família nas festas de fim de ano. O máximo de felicidade que permiti à minha alma de artista foi me aventurar por Artes Cênicas, mas isso porque se eu fosse muito, muito boa, talvez ganhasse um bom dinheiro e fosse famosa. Escritor é pobre.

Lembro-me com pesar de que, numa festa, rejeitei um gordinho que me fez rir a noite toda, era simpaticíssimo, me deixou à vontade, era absurdamente simples e gente boa. Mas já havia um bonitão que estava me dando bola. Alto, forte, moreno, pinta de bom de cama, o bonitão falou besteira, foi sem graça e beijava mal. MUITO mal.

Digo que não ligo para beleza, mas a primeira coisa que elogio numa amiga, quando a vejo, é o quanto ela está "mais jovem", "mais magra", "mais elegante" etc.

Penso na minha vida sem todos esses esforços inúteis pelo que reluz (ainda que eu diga que o meu empenho vai em direção contrária, eu sei que não faço o que digo). Fico pensando como seria se eu tivesse a coragem de não impressionar, a mim e a aos outros. Penso na vida como se eu fosse um poema do Manoel de Barros.

Ah, Deus, me dá a graça de ser um poema do Manoel de Barros!

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3 comentários:

Zoraya disse...

Que texto mais lindo e corajoso, Analu! Que Deus ouça as suas preces. E que você continue escrevendo, por favor.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Analu, que Deus lhe dê essa graça, pedida de forma tão graciosa. :)

sergio geia disse...

Analu, simplicidade é o que também busco. Ser um cara mais leve. Acho que as lágrimas me ajudam. Estamos juntos nessa.