segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Ó RAIOS! >> Albir José Inácio da Silva

Dona Rosa tinha mais que nome de flor, tinha paixão, a ponto de não permitir que nenhuma flor se despetalasse ou morresse no pé. Se não as vendia, dava-as. Não fazia isso por amor às pessoas, mas às flores.

Tanto assim que não gostava quando lhe pediam:

— Aguarde a sua vez! — dizia de mau humor, mas logo arranjava um jeito de atender ao pedido.

Depois que o marido morreu, Dona Rosa vivia das flores que cultivava no quintal de casa. Era uma venda irregular, às vezes não ganhava nada, mas precisava de pouco e ninguém jamais a ouviu reclamar.

A poucos metros ficava a quitanda de um patrício, um lugar confuso, que talvez desse prejuízo se alguém fizesse as contas. Seu Manuel comia do que havia nas empoeiradas prateleiras e pagava a conta de luz. Nunca pensou que pudesse ser melhor.

Parecendo sair de seu próprio estoque, ele vivia de mau humor e só abria a boca para reclamar do caixeiro, um moleque a quem ele chamava de Estrupício e, diante dos fregueses, de Pício, numa tentativa de amenizar o assédio.

Dona Rosa passava duas vezes por dia em frente ao estabelecimento. Pela manhã saía para vender, empurrando um caixote, oferecia aos passantes, entrava nas lojas e batia palmas nos portões. No final da tarde saía de novo, com as flores que não vendera e que não durariam viçosas até o dia seguinte, distribuindo de graça às moças que encontrava. Como sabemos, não permitia que elas definhassem no pé, ou depois de colhidas.

Seu Manuel não perdoava aquela heresia comercial:

— Ó Dona Rosa, tu és uma rosa ou uma cavalgadura? Se tu dás as flores, quem é que tas vai comprar?

— Cavalgadura não sou eu, Manuel, e também não foi tua mãe, já que nascestes de chocadeira!

Com o reumatismo piorando, Dona Rosa já não podia andar como antes. O que fez então? Um belo dia parou seu caixote em frente à quitanda. Ficou por ali assuntando, vendendo, sentada ou andando de um lado para o outro. Até água pedia ao garoto.

Seu Manuel resmungava, mas nada podia fazer, ela estava na rua e a rua é pública. À noitinha distribuía gratuitamente as flores que não vendia, e era nesse momento que o quitandeiro mais se revoltava.

(Continua em 19 de outubro)

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2 comentários:

Zoraya disse...

ohhh, estou sentindo cheiro de história bonita no ar... Saudades, Albir!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Concordo com a Zoraya. Acho que vem coisa boa aí... :)