quarta-feira, 21 de outubro de 2015

FACILIDADE NÃO É BANALIDADE >> Carla Dias >>


Nasceu no anteontem de um ano pelo qual nenhum calendário se interessa. Seu registro geral já foi esquecido em bancos de dados que não são mais acessados. Suas habilidades profissionais tiveram de mudar conforme o mundo se transformava, mas ainda se lembra de quando a simplicidade presente era o desafio no passado.

Particularmente, ele não compreende certas facilidades.

Facilidades já comprometem seu interesse pelo mundo. Não compreende — ou deseja se valer de — ferramentas e investidas para facilitar o que deveria ser do jeito que tem de ser, aquilo que exige que a jornada seja trilhada do começo ao fim. Esse tipo de facilidade abriu alas a todo tipo de facilitador. Assim, surgiram figuras como traficantes de diplomas que certificam que completos idiotas exerçam profissões fundamentais como a de médico.

Vai ao botequim para uma dose que seja do que for. Não quer conversa, que anda nostálgico a respeito de um de seus muitos amores. Porém, senta-se ao seu lado um homem que se apresenta não pelo nome, mas pela profissão: sou médico. Um médico falante, o que fica mais evidente a cada garrafa de cerveja. Então, o médico lhe conta que, na verdade, ele é esteticista, mas cirurgia plástica estava em alta, e eu precisava de dinheiro, então... 

Então ele estudou medicina pela internet e comprou seu diploma. Deu-se bem, durante anos, mantendo uma clínica que parcelava cirurgias em muitas vezes, em cartão de crédito e cheque. Contou-lhe sobre como sua carreira como cirurgião plástico chegou ao fim.

Pelo jeito, apaixonar-se por uma paciente — e ele o fez logo na segunda consulta — não é nada indicado para quem deseja manter-se ativo em profissão surrupiada. Casou-se com ela, após lhe conceder seios firmes, que ele já sonhava em arrebanhá-los com as mãos, ainda quando eles não eram tão vigorosos, já na primeira consulta dela. Mas nem pense que ele próprio fez o serviço. Temendo errar a mão, e justo no serviço feito na sua amada, delegou a função a um cirurgião de verdade. Além do mais, queria que o serviço ficasse impecável, para que pudesse desfrutar do resultado.

Divorciaram-se alguns anos depois, em meio a uma batalha judicial que lhe custou os tubos, que o deixou sem dinheiro bom de médico que não é médico e que aceita cartão de crédito e cheque pré-datado.

Obviamente, ele conta sobre a série de processos que vem sofrendo, mas sem detalhes. Não tem mais clientes/pacientes/inocentes, porque sua incompetência foi parar nos jornais. Alegou que estava sofrendo por amor, por isso cometeu tantos erros. A culpa é do amor... Do amor... Apesar do repúdio público, mantém em seu consultório — um deserto – o diploma pendurado na parede. Não tem ideia de quando — e se — será preso.

Nascido há tanto tempo, tarimbado quando se trata da indecência existencial que perscruta parte da humanidade, ele bebe um gole de sua bebida, agindo como se pouco lhe importasse a situação do médico de mentirinha. Na verdade, dentro dele pulsam mil palavrões que adoraria verbalizar para esse incompetente ser humano, que ainda consegue se lamentar como se tivesse sofrido um golpe do destino. Como se a facilidade assumida por ele não tivesse custado o sonho e a saúde dos mais de duzentos processos que lhe cabem.

A facilidade pode ser tacanha e cruel. Nunca foi adepto das criadas em benefício de um único grupo de pessoas, ou de uma delas. Ele nasceu há tanto tempo, já assistiu a cada cena de vida, calou-se diante de crueldades cometidas com assustadora naturalidade... Como? Ele se pergunta frequentemente, sem obter uma resposta que lhe satisfaça a pergunta.

Como mantemos a vida com hálito de desejo pelo melhor, diante do esquecimento do que é justo, das regras maleáveis que reescrevem, diariamente, o destino das pessoas? Como sobrevivemos aos que se valem de determinadas facilidades para alcançar realizações que ameaçam a vida do outro? Como sobrevivemos a nós mesmos?

Para alguém que já passou por tanto, ele sabe que se trata de pouco-caso. Bebe seu último gole e abandona o médico fajuto com seu lamento sobre como a vida lhe tratou mal. Volta para casa, para seu calmante de efeito rápido, para os livros empilhados pelos cômodos, para seu gato Nick Cave que canta seu miado quando ele chega.

Não consegue deixar de lado as histórias contadas pelo pseudomédico. De hoje em diante, e sabe-se lá até quando, repetirá cada uma delas a si mesmo. Apaga as luzes, senta-se em sua poltrona preferida, fecha os olhos e Nick Cave pula em seu colo. Nasceu há tanto tempo e não vê a hora de terminar sua jornada. Não vê a hora de abraçar o esquecimento.

Imagem © Róbert Berény

carladias.com

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4 comentários:

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

A impostura é banal hoje em dia e faz gente sensível a ela sofrer. Quero acreditar que seja a marca de uma época. Desejo, do fundo do meu ser, que não passe disso e que no futuro, quando os homens olharem para trás, vejam esta impostura banalizada e impune como quem vê galochas e espartilhos.

Carla Dias disse...

André... Também espero que as coisas mudem para melhor. Na verdade, acredito que chegamos ao ponto de que essa seja a única forma de nos mantermos humanos. Que aconteça logo, então. Obrigada pela leitura. Beijo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mais dois belos personagens, Carla. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Fico feliz que tenha gostado. :)