terça-feira, 13 de outubro de 2015

A CONTA, POR FAVOR >> Clara Braga

Noventa por cento dos brasileiros tem o hábito ou mania de ouvir a conversa dos outros. Não, minha afirmação não é baseada em algum estudo sério, até porque estudiosos sérios não perderiam tempo com esse tipo de pesquisa (ou perderiam?). Minha afirmação é puramente baseada na observação. É claro que se você perguntar para as pessoas se elas fazem isso, o número diminui consideravelmente, já que essa prática é considerada feia e as pessoas não têm coragem de assumir que fazem, mas a verdade é que a grande maioria presta atenção na conversa dos outros, e as vezes nem é por querer.

Bom, mas se esse hábito é comum ou não, correto ou não, não vem ao caso no momento. O que importa é que ele rende boas histórias. A que vou relatar hoje nem aconteceu comigo, mas essa não é uma forma de me esquivar e dizer que eu não presto atenção na conversa alheia, eu presto, só não tive a sorte, ou o azar, de presenciar o caso que vou relatar agora. Desculpem-me se estou demorando para ir direto ao assunto, mas preciso dizer que também não vou contar quem foi que ouviu a história, afinal dedurar o hábito dos outros eu já acho sacanagem, mas só acreditei que o caso de fato aconteceu pois confio muito na pessoa que contou.

A história começa quando a pessoa que eu não vou contar quem é foi jantar com a namorada e observou em uma mesa próxima uma mulher estranha. A mulher comia uma sobremesa sozinha, estava um pouco mal arrumada, nenhuma expressão muito feliz. Por algum motivo isso chamou a atenção e a pessoa ficou observando essa mulher, quase com pena dela. Não por ela estar sozinha, mas pela forma como ela estava sozinha. Passado um tempo, a mulher pede a conta e então começa uma pequena confusão. A distância não permitiu que a pessoa ouvisse exatamente o que estava sendo dito, mas aparentemente a mulher não estava conseguindo pagar a conta. Até aí tudo bem, atire a primeira pedra quem nunca ficou refém dessas máquinas de cartão que às vezes decidem ficar sem sinal. Ou refém do banco que saiu do ar. Mais um tempo de discussão e a mulher finalmente vai embora, mas a sensação é de que a história não foi totalmente resolvida.

Passado um tempo, a pessoa também termina seu jantar e pede a conta. Para a sorte do seu lado curioso, o garçom era fofoqueiro e foi logo falando:

— Vocês viram a mulher que estava sentada na mesa aqui próxima de vocês?
— Sim, vimos!
— Vocês não vão acreditar, ela pediu a conta mas teve problemas para passar o cartão, por algum motivo a operação não estava finalizando. Ela mostrou o prédio aqui atrás do restaurante e disse que morava lá, que deixaria a identidade com a gente e iria rapidamente em casa buscar o outro cartão. Peguei a identidade dela e deixei que saísse. Quando fui olhar melhor, percebi que a identidade era falsa!

Inacreditável! É impressionante como a gente nunca imagina que essas coisas vão acontecer tão perto da gente. A pessoa que eu não vou falar quem é, durante o episódio, havia olhado para a mulher e quase ficou com pena dela! Mas muito provavelmente até esse olhar de gato de botas do Shrek estava perfeitamente ensaiado para que ninguém desconfiasse dela na hora de passar o cartão!

O restaurante não era tão caro, a mulher não jantou, apenas comeu uma sobremesa! Vamos exagerar muito e dizer que a conta dela em um restaurante não tão caro, com uma sobremesa, uma bebida e os 10% tenha dado 40 reais. Em tempos de crise, claro, nem todo mundo tem esse dinheiro no final do mês para dar em uma sobremesa, mas dar um golpe desses?

Não gosto de julgar, mas no mínimo é o tipo de pessoa que diz que já paga imposto, já paga conta alta, já tem que lidar com o fato do governo roubar o dinheiro dela, então ela está apenas arrumando uma forma de adquirir o dinheiro dela de volta. E assim vamos nós, vivendo e cometendo “pequenos” atos corruptos, e depois reclamamos do país onde vivemos. O mais absurdo nem é isso, o que mais me revolta nisso tudo é que, no final das contas, nós ainda temos que levantar as mãos para o céu e agradecer. Sim, agradecer e muito, pois, do jeito que as pessoas andam, esse tipo de golpe está fora de moda, o normal agora é sacar uma arma e matar todo mundo logo de uma vez.


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2 comentários:

Analu Faria disse...

Nossa! Inacreditável!

Andreza Gonçalves disse...

Boa crônica Parabéns!