Pular para o conteúdo principal

ME SENTINDO CONFUSA >> Clara Braga

Outro dia estava ouvindo rádio a caminho do trabalho e, durante um programa de entrevistas e notícias, os participantes começaram a discutir sobra a situação política e econômica do Brasil na atualidade. Falavam sobre o quão envergonhados eles se sentiam ao observar que a prisão só existe para os pobres e o quão triste é o fato de nenhum político ser condenado da forma como deveria diante de tamanha roubalheira. 

Todos os participantes comentavam a situação com uma certa revolta e concordavam com o fato de que a lei deve valer para todos da mesma forma, ninguém deve ter regalias, seja lá quem for e seja lá o que essa pessoa tenha feito.

Logo após a discussão sobre política, uma nova notícia muda o rumo do debate. Um detento estuda por conta própria, termina os ensinos fundamental e médio e é aprovado em cinco cursos pelo Enem. Seu pedido de saída para estudar foi negado, uma vez que, pela lei, um preso reincidente em regime semiaberto tem que cumprir um quarto da pena para ter direito a saídas temporárias e o detento em questão ainda tem mais dois anos pela frente para alcançar um quarto de sua pena de 72 anos.

A partir daí as opiniões não eram mais unânimes, mas teve muita gente defendendo o detento e dizendo que, afinal, sempre repetimos o discurso sobre o quão importante é ressocializar o preso para que ele não cometa mais crimes e seja aceito pela sociedade quando terminar de cumprir sua pena.

Confesso que nunca ouvi uma discussão que tenha me deixado tão confusa. Isso aconteceu já tem uns dias, mas até agora me pego pensando no caso e tento definir uma opinião, mas não consigo. Para mim soa contraditório uma hora pedir que a lei seja cumprida de forma mais rigorosa e igualitária, e no minuto seguinte buscar uma brecha para livrar o cara que também, por algum motivo, foi considerado perigoso para a sociedade. 

Afinal, queremos ou não que a lei seja aplicada e cumprida por todos de forma igualitária? Dar a chance do detento estudar é descumprir a lei ou contribuir com o crescimento de uma pessoa que está tentando ser melhor na vida? Não tenho respostas, por enquanto só perguntas que parecem aumentar a cada hora que passa.

Comentários

Analu Faria disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Analu Faria disse…
Isso é tenso. Nosso sistema penal não é tão flexível como o anglo-saxão (americano, por exemplo). Mas somos o país do "jeitinho". O que fazer? Considerar o "jeitinho" uma coisa bacana e flexibilizar o sistema, para atender melhor às necessidades da nossa sociedade, ou considerá-lo perigoso e manter a rigidez, para evitá-lo?
Quando se trata do julgamento acerca da vida de uma pessoa, melhor mesmo é ter mais perguntas que respostas, Clara. :)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …