domingo, 4 de outubro de 2015

O CAMINHO DO DESTERRO >> Eduardo Loureiro Jr.

Minha mãe é uma graça: diz que, quanto mais reza, pior a coisa fica. E eu, que não sou ministro da eucaristia nem conselheiro nem nada, digo para ela que, se com reza está assim, imagine sem reza. E lhe peço: continue rezando aí que eu continuo rezando cá.

Minha reza é um tiquinho diferente da de minha mãe. Ela reza para Nossa Senhora, "depois deste desterro, mostrai-nos Jesus". Eu me aconchego no colo de Nossa Senhora, enquanto peço direto a Jesus:

— Meu irmão, me diga aí como foi que vim parar neste desterro?

— Ué, esqueceu do caminho? — ele perguntou, sorrindo esperto.

— Que caminho? — tentei dar uma de João-sem-braço.

— Você acha que foi parar aí como?

— Sei lá! Destino, castigo divino, má vontade dos outros...

— Tolinho — Jesus gargalhou. — Você foi caminhando, passo a passo, sem ninguém empurrando.

E como eu fizesse cara de tristeza, ele resolveu me contar:

— Minha mãe, segure bem esse menino, não deixe ele escorregar, que eu vou descrever o caminho do desterro pra ele...

Eu ainda pensei em pedir uma chupeta pra Nossa Senhora, mas resolvi ficar calado.

— O caminho para o desterro começa no que você chama de amor.

— Justo no amor? — arrisquei.

— No que você chama de amor. Fique atento aos seus pensamentos tortos enquanto eu falo as coisas certas. Você ama a Deus?

— Claro.

— Vamos ver... Você ama o próximo?

— Amo.

— Tem certeza?

— Amo tanto que, quando não estou mais amando, saio logo de perto para não ficar mais próximo daquela criatura.

— Esses moços... deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno à procura de luz.

— Epa, isso aí é Lupicínio Rodrigues.

— Não posso citar meu irmão Lupicínio?

— Mas ele é ateu.

— Só da boca pra fora. E você?

— Sou ateu não, já falei que amo a Deus.

— Tô querendo saber se você ama a si mesmo.

— Que pergunta é essa?

— Ama-se ao próximo como a si mesmo. Se você está fugindo do próximo...

— Mas não tem como eu fugir de mim mesmo.

— Ah, tem...

— Tem?

— Tem.

— Como?

— Não se olhando bem fundo até o dedão do pé?

— Eu conheço isso aí...

— É Gonzaguinha.

— Isso. Mas me diz uma coisa... Você não tem umas falas originais, não? Fica só repetindo compositor de MPB.

— Quer que eu comece a citar compositor de forró universitário?

— Não, MPB tá bom. E confesso que dou minhas escapulidas de mim mesmo. Mais alguma pergunta.

— Uma última, só pra desencargo de consciência. Você ama seus inimigos?

— Você pode me tirar uma dúvida antes?

— Sim, meu irmão.

— Essa história de amar os inimigos não é bem assim, né? Deve ter sido algum erro de tradução do aramaico pro grego, depois pro latim, depois pro português, né?

— Nisso a tradução foi perfeita. Amar o inimigos e ponto final. Tá amando?

— Você deve estar louco.

— Faz mais de dois mil anos que me dizem isso. Suponho que a sua resposta é não.

— Estou condenado eternamente ao desterro?

— Tenha fé em Deus, tenha fé na vida.

— Mas Raul Seixas não era satanista?

— E se fosse?

— O diabo é seu inimigo.

— Tenho o maior amor por ele.

Olhei para o rosto de Nossa Senhora para ver se encontrava algum olhar do tipo "esse meu filho não leva mesmo jeito", mas só encontrei um olhar amoroso para seus dois filhos. Dei-me por vencido, fechei os olhos e tirei  um cochilo naquele colo gostoso.




Partilhar

8 comentários:

Lilu disse...

Que luxo orar no colo de Nossa Senhora, batendo um lero com Jesus!
Um dia eu chego nesse desterro... Linda crônica, Lindo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Linda. :)

albir silva disse...

Edu, acho que esse negócio de "Ame o próximo" assusta tanto como "Vende tudo e distribui com os pobres". Pergunta-se logo: "Amar a quem?"

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É de assustar mesmo, Albir.
Por isso cada um deve encontrar a resposta por si. ;)
Lembrei de um minúsculo poema antigo:
A solução
do soluço
é um susto.

Graça Grauna disse...

A sua crônica é linda. Gostaria de ter escrito. Parabéns pelo senso de humor. Abraços, Graça Graúna

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Graça.
O humor facilita a escrita e a leitura. :)

Zoraya disse...

Amei mt Eduardo. lá no FB falei q era devota de NSDesterro, mas aqui comento outra coisa; tudo o q a gente precisa é isso o q vc fez - conversar com Jesus com leveza, na brincadeira, como irmão mesmo. Reli hoje e me diverti ainda mais. Pra dizer a verdade, dei a maior risada qd Jesus respondeu "tenho o maior amor por ele", falando do Diabo. Genial. Essa é daquelas suas pra guardar

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Zoraya, por guardar minhas palavras em seu generoso coração. :)