quinta-feira, 5 de abril de 2018

O NARIZ MEDITATIVO>>Analu Faria

Cheiro de patchuli, alguma flor, cheiro de árvore... hum, que árvore? Não é frutífera..... putz não sei. Que cheiro é esse? Cheiro do moço que passou por mim. O moço não é lá muito bonito, mas do perfume eu gosto. Qual será o nome dele  - do moço e do perfume?  Eu repararia naquele se não fosse este?

Cheiro de repartição pública é levemente cheiro de bolor misturado a produto de limpeza (amônia com um toque artificial de menta ou capim limão ou maçã verde). E poeira, mas não tem poeira na repartição onde eu trabalho. Pode estar nos dutos do ar condicionado, pode estar dentro do armário, pode estar dentro do meu nariz de burocrata. Hoje a repartição também tem cheiro de chocolate, porque foi Páscoa e alguém trouxe um ovo de chocolate que ninguém em casa quis comer. O chocolate acabou, mas ainda sinto no ar o cheiro. Serotonina, se tiver cheiro, tem esse cheiro. Alegria, também.

Dizem que ninguém da nossa geração sabe o cheiro de almíscar, porque, retirado de glândulas de um veado que cresce na Ásia, é bastante raro, difícil e também ecologicamente incorreto usá-lo, e já há alternativas sintéticas razoáveis. Dizem que, tirado o primeiro odor meio repulsivo (logo que a glândula do bicho é retirada), tem "o cheiro quente de uma cabeça de bebê". Li em outro lugar que tem cheiro de homem. Bebê e homem me remetem a coisas tão diferentes! Fico querendo sentir o cheiro de almíscar de verdade. Chego a esquecer que um bicho pode morrer para que eu sinta um cheiro. Quero ver a glândula, quero ver o animal abatido, quero ver a extração do órgão. Um bicho tão bonito, tem dentes de sabre! O nome certo é cervo-almiscarado.

Perdi os cheiros à minha volta enquanto pensava no almíscar, no veado, na Ásia. Quanta gente passou por mim pela rua, quanto cheiro de perfume e suor e talvez sangue e talvez pus, talvez lágrima, talvez cigarro, talvez... Não há coisa que te faça prestar mais atenção no que existe aqui e agora que os cheiros! Em outras palavras, o nariz te traz para o presente, sempre e sempre, porque a cada segundo os cheiros mudam, como as células, como o próprio tempo. Basicamente o que a meditação diz para a gente fazer: viver agora. Prestar atenção agora. O nariz, eu penso, deve ser um órgão meditativo.




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