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SE EU FOSSE DAS COISAS DITAS >> Carla Dias >>


Que há sim o que eu diria se houvesse tempo e espaço e encontro e vitalidade. Coisas como dane-se!, declaração seguida por uma gargalhada afiada, das que deixam bem claro que a verdade foi dita e com gosto.

Só que me amiúdo em mim, reverberando silêncios e contrabandeando espaços que me separam de desfechos. Longe eu me mantenho, que é para não correr o risco de quebrantar em cinco minutos de conversa fiada, aquele aquecimento necessário para chegar ao que eu diria se tivesse coragem.

Que, nesse momento, consigo nem dizer para mim mesma.

Certa vez, um padre disse: pode contar tudo, minha filha. Foi nesse quando que compreendi que jamais diria a verdade a quem pedisse pelo meu tudo. Ninguém deveria pedir o tudo ao outro. Tudo é matéria que nem mesmo o proprietário dele conhece por inteiro. Então, contei ao padre um tudo forjado pela minha imaginação. Colori e sombreei o que achei cabível. Modifiquei nuances, incrementei com suspiros as minhas declarações.

O padre adorou a história, mas disse que eu era das pecadoras que precisam se dedicar para não cometerem pecados com aguda facilidade e vergonhosa felicidade. E enquanto ele explicava seu ponto de vista, com a benção de Deus, obviamente, eu só conseguia pensar que eu tinha criado, para entregar àquele estranho, um tudo que eu viveria com gosto.

Que a pele sempre desejará ser arada por toques. As palavras escaparão, libidinosas. Os cômodos serão preenchidos com caminhadas na cadência da ansiedade, porque passou da hora do abraço. A curiosidade sempre me levará à próxima pergunta, ao aprendizado seguinte, ao erro inevitável.

Mas eu diria, se eu fosse das coisas ditas, com ênfase na palavra mais arisca, com a convicção de quem quer saber nada sobre dúvidas. E o dito ecoaria de dentro de mim para o fora do mundo. Sairia da obscuridade do conhecimento único para rebater lonjuras ao se esgueirar pela percepção alheia. Compartilharia a coisa que é o que é, onde as invencionices não se colam, tamanha veracidade há em seus dramas.

Não que haveria importância se eu o dissesse. Por mais volúvel que parecesse, entremeado por suspiros e labirintos e urgências. Ainda que tivesse como meta remoçar sentimento, enquanto o tempo envelhecesse corpo. Talvez houvesse muito ali, menos a importância coletiva. É egoísta mesmo. É intransferível. Cabe somente a esse universo que chamo de meu, mas onde outros, com um pouco de habilidade preguiçosa, desafogam suas auguras, depois voltam para suas casas, leves e esperançosos.

E eu fico onde estou, pesada e melancólica.

Disse que melhor era pagar penitência, e que eu rezasse Pai Nosso, Ave Maria, entoasse o Credo. Que fortalecesse o contato com anjos e dispensasse os demônios. Naquele momento, eu disse, assim, sem medo e com a verdade na essência:

Não, obrigada.

Agradecida, recolhi meus pecados inventados, inspirados pelos atrevimentos verdadeiros, e fui para a rua. Garoava e, ainda assim, as ruas estavam consideravelmente frequentadas. Observei aquelas pessoas úmidas de garoa. O que será que elas não dizem?

Quer comprar bala de hortelã, moça?

E o encaro, miúdo e de olhar choroso. Tiro uma nota do bolso e troco por um punhado de balas. O menino vai embora e eu nada digo.

Mas eu diria. Eu diria se...

Imagem: Water Serpents II © Gustav Klimt

carladias.com

Comentários

Anônimo disse…
Seus leitores sempre pensavam que o que você falava eram verdades. Então um tanto é mentira e outro tanto é inventado? Tem problema não, a gente vai continuar gostando. Manda mais!

Abraços,
Enio
Zoraya Cesar disse…
Carla, deve ser bem legal observar voce andando por aí, espalhando poesia. Texto lindo, como sempre.
Carla Dias disse…
Enio, até que a flexibilidade da verdade me apete, mas em certos casos, quando a poesia pode ser bem aplicada. :) Beijos.

Zoraya, você sabe que já nem sei como lhe agradecer tanta gentileza. Voltemos ao básico, mas com muito carinho: obrigada. Beijos.

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