quinta-feira, 8 de maio de 2014

EFUSIVOS INCOMPREENDIDOS >> Fernanda Pinho

Já li vários textos escritos por pessoas introspectivas, manifestando para o mundo suas dificuldades e também as vantagens que encontram levando uma vida mais, digamos, recolhida. Naturalmente, são textos excelentes posto que grande parte das pessoas que desenvolvem a aptidão para escrever geralmente o fazem por isso: porque são introspectivos e descobrem na escrita uma forma de se expressar.

Por outro lado, dificilmente vejo alguém escrevendo alguma defesa às pessoas mais expansivas e é isto o que me trouxe à crônica de hoje. Não estou negando minhas origens nem nada. Sei que, num passado remoto, comecei a escrever – cartas, diários e histórias – porque tinha uma certa preguiça de me relacionar de outras formas com o mundo. Mas a preguiça passou, a genética entusiasmada falou mais alto, pendurei meu casulo e hoje acho que faço parte do grupo que estou chamando de efusivos incompreendidos.

Antes de falar da incompreensão, porém, preciso falar dos nossos sofrimentos. Pode parecer exagero usar a palavra “sofrimento”, mas sem exagero não há efusividade. Ficamos exageradamente empolgados com qualquer coisa e por isso somos frequentemente vítimas do famigerado balde de água fria.  Você se empolga para contar uma novidade para alguém, cria mil e um diálogos imaginários para ajudar a deixar o momento mais emocionante. Você passa meses planejando uma surpresa para alguém, praticamente tem que fazer um voto de silêncio para segurar a língua e não estragar o próprio plano. Você passa numa loja e vê um presente a cara de alguém, não pode comprar mas compra assim mesmo, parcelado no cartão e tudo e mais. E quando chega o grande momento de entregar a novidade/surpresa/presente para alguém, você ouve um: “ah, legal”.

Minha nossa! Nada pode ser pior. Quer dizer. Pode. Você pode mandar uma mensagem via Facebook, Whatsapp ou qualquer outro aplicativo de sua preferência cheia de exclamações e carinhas e a pessoa responder com um econômico “rs”. Ou um frio e calculista “ok”. E, sim, caros introspectivos, lendo os tantos textos sobre vocês, já entendi que isso não quer dizer que vocês necessariamente estejam indiferentes. Apenas são mais contidos em suas manifestações. Mas para nós que ficamos saltitantes até quando encontramos uma moeda de 25 centavos perdida no bolso de uma calça, é difícil de entender.

Assim como muitas pessoas também não entendem por que nos entusiasmamos por tão pouco, por que puxamos assuntos com qualquer um, por que sempre queremos participar da conversa, por que enchemos nosso Facebook de fotos felizes. Não nos entendem e às vezes nos julgam.

Acusam-nos de forçados, na maioria das vezes: “Ninguém pode ser tão alegre assim logo cedo”. Ué, eu posso, e daí? “Ninguém pode ser solícito desse jeito. Deve ter alguma intenção por traz disso”. É por isso que o mundo não vai pra frente. Que falta de fé na humanidade. “Ninguém é legal desse jeito. Essa mulher deve estar a fim de mim”. Essa última frase dedico especialmente a uma grande amiga que é muito mais efusiva que eu e, frequentemente, tem que dar explicações para algum cara que confunde seu jeito “sou educada e sorridente e adoro dar abraços apertados em todo mundo” com “estou apaixonada por você e por isso estou te dando mole”. Ai, homens, sempre tão pretensiosos.


Também percebo que existe uma tendência a supor equivocadamente que as pessoas mais expansivas são desfavorecidas intelectualmente. Talvez por imaginarem que por falar demais ou sorrir demais (para as fotos, de preferência) não temos tempo de desenvolver nossa capacidade de observação e reflexão.  Que nada, com a prática você aprende a falar, sorrir, observar, refletir tudo ao mesmo tempo agora. E o que exige uma análise mais profunda, reservo aos momentos em que estou sozinha. Quando estou com gente, eu gosto é de interagir, sem a preocupação de fazer o estilo blasé para parecer mais interessante.


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2 comentários:

Alberto Lima. disse...

Nossa, falou meu todo.

Há um tempo atrás eu era reservado demais. Ainda sou, por conta da minha timidez. Mas faz um tempo também que ando aprendendo a falar mais com os outros, interagir e tudo mais. Realmente ficar de cara fechada não é legal. Acho que todo mundo um dia deveria passar por esse processo.

"É tímido? Tudo bem, seja tímido. Isso vai fazer você ser mais reservado. Mas esforce-se e tente sorrir mais para as pessoas. Ficar o tempo todo preso em seus próprios pensamentos e suas próprias opiniões é burrice. Ouça mais. Opiniões alheias são importantes." Eu disse isso para mim mesmo um dia. E hoje, com um pouco do meu esforço, percebo a mudança.

Amei a crônica. Parabéns.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eu, um introspectivo, gosto de observar o animado movimento dos efusivos. De preferência, deitado numa rede.