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SODAMA III >> Albir José Inácio da Silva

E o que inaugurara tudo de bom na vida de Seu Ernesto, começava a ficar incômodo. O dinheiro era bom, o prestígio, mas não queria ser conhecido como cafetão. Precisava dissociar seu nome daquele lugar sob pena de ver naufragarem suas pretensões eleitorais.

Era um homem respeitado agora. Empresário nos ramos de imóveis, transportes, comércio e refeições. Exercia uma liderança que começou como patrão e se estendeu como benfeitor daquele pedaço de chão, afastado da cidade, que não parava de crescer. Não pensem que suas pretensões políticas são frutos apenas da vaidade. Não. A vereança viria apenas revestir de direito uma representação que de fato ele já exercia.

Acontece que o sucesso não fica impune. Se foi o sucesso que permitiu a candidatura de Seu Ernesto, foi o fracasso que levou para a política seu adversário e crítico, o Reverendo Manassés. Depois de tentar tudo na vida, Manassés comprou um terreninho em frente ao Sodama, com as facilidades de preço e financiamento de Seu Ernesto. Montou franquia de uma igreja famosa, comprou um alto-falante fanhoso e começou a esbravejar contra o pecado, ameaçando com todas as pragas do Egito os pecadores. Claro que os clientes do Sodama não gostaram nada daquelas ameaças no momento mesmo em que buscavam o nirvana.

Reclamaram com seu Ernesto, que reclamou com Manassés, mas sem resultado. Ele invocava, também pelo auto-falante, sua garantia constitucional de liberdade religiosa e seu dever de denunciar a imoralidade. A madrugada ia alta quando mascarados invadiram e atearam fogo na igreja e espancaram o reverendo e seus colaboradores, obrigando-os ao caminho inverso das meninas do Sodama. Seu Ernesto, é claro, tinha álibi na cidade e lamentou o ocorrido.

Manassés voltou pra cidade, mas não se calou. Quando Seu Ernesto resolveu se lançar candidato, já tinha um feroz adversário. Estava armada a mais encarniçada batalha política que a cidade já vira, com armas e forças do céu e da terra.

A plataforma de Manassés era a limpeza moral da cidade “que chafurdava no pecado e na impudicícia, sendo o principal antro um lugar chamado Sodama, em que eram corrompidos os varões de todas as idades e de todas as classes sociais, incluindo-se aí algumas autoridades. Era preciso extirpar aquele câncer antes que o castigo viesse sobre os moradores, sem poupar nem mesmo os inocentes”.

Oh surra bem dada! pensou Seu Ernesto, mas parece que foi insuficiente! Ele avaliou a situação: o Sodama representava agora uma pequena parcela de seus negócios; poderia acabar com ele e, com isso, calar a boca de seus detratores.

Seu Ernesto esperneava, fazia carreatas, discursos, distribuía brindes, prometia empregos e casas, beijava crianças e abraçava velhinhas, mas a candidatura não decolava. Os discursos do adversário ligavam-no ao Sodama e ao inferno, e ele era apontado como representante direto de Belzebu na cidade.

E tudo fazia crer que o bem venceria mais uma vez, quando, num mal explicado acidente de automóvel, Manassés foi para o almejado paraíso, no momento em que talvez desejasse ficar mais um pouco.

Seu Ernesto lamentou o desaparecimento de “tão aguerrido adversário” e redobrou seus esforços de campanha.

(Continua em 15 dias)

Comentários

Isso vai longe... :)
Que bom!
Zoraya disse…
Albir, que história interessantíssima!
Babinho disse…
Estou curtindo !!!

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