domingo, 25 de maio de 2014

PALAVRAS DESENHADAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Meus primeiros poemas foram escritos com caneta sobre papel. Minhas primeiras crônicas foram escritas em um computador. Estas palavras que você está lendo agora estão sendo escritas em um telefone celular. Não, eu não estou catando milho no teclado. Estou — acredite se quiser — deslizando meu dedo indicador direito sobre a tela, ligando rapidamente uma letra a outra letra, como se fosse uma criança fazendo as primeiras garatujas. A diferença é que o aplicativo que estou usando transforma meus rabiscos em palavras.

O leitor talvez nem consiga imaginar a que estou me referindo. Confesso que um vídeo seria mais esclarecedor do que estas minhas palavras. Mas fazer o quê? Não sou cineasta, sou escritor.

Tudo bem, o aplicativo não é perfeito. Não conhecia a palavra "garatujas", por exemplo, então tive que digitar letra por letra, à moda antiga. Às vezes, o aplicativo também não entende direito o que desenho: quando intencionei desenhar "escritor" pela primeira vez, ele escreveu "escroto", mas tomei como um pequeno erro e não como uma ofensa pessoal. Prova disso é que, da segunda vez em que desenhei "escritor", o reconhecimento foi imediato.

Às vezes, um mesmo desenho pode dar origem a várias palavras. O aplicativo escolhe uma delas, mas entre o teclado e o texto aparecem algumas outras palavras, de modo que uma eventual correção pode ser feita com um só toque. "Correção", por exemplo, havia sido identificada como "coração"; um erro até simpático, diga-se de passagem, que eu corrigi com um único toque (que o aplicativo pensou que fosse um "tique").


Sim, eu sei que minha intenção este ano é ser mais natural, e que ficar experimentando novos aplicativos de celular talvez não seja a melhor forma de alcançar isso. Mas escrever desenhando, mesmo que sem caneta ou papel, não é mais natural do quer ficar pressionando teclas? Às vezes, para alcançarmos nossos objetivos, é preciso seguir caminhos não tão óbvios ou até mesmo contraditórios. Aliás, ser contraditório é algo que me é muito natural, logo está plenamente justificado este meu pequeno prazer tecnológico em um ano em que eu desejo me tornar o mais natural possível.

P. S. Para quem tem Android, o aplicativo original é o Swiftkey. Para quem só tem o iOs, como eu, a alternativa é usar o Path Input.

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Um comentário:

albir disse...

Muito bom, Edu, poder rabiscar sobre a tela. A digitação às vezes me rouba a fluência do raciocínio. Vou procurar essa novidade.