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A VOLTA >> Whisner Fraga

Depois de uma semana fora, me lembrei que não há melhor lugar no mundo do que minha casa. Viajar é bom, conhecer lugares novos é ótimo, mas parece que a estrada só serve para nos mostrar que a saudade exige que retornemos. Até Helena não aguentou e hoje pediu para vir embora. Como é dia de Parada Gay, decidi que sairíamos bem cedo, para evitar um possível congestionamento.

Na altura do quilômetro 80 da Rodovia Bandeirantes, porém, surgiu uma enchente de carros e motos. Como o plano era uma parada no Posto 56 para um almoço, ponderei que ainda poderíamos escapar. Cabeça fria. Paramos, enchemos o tanque, esticamos as pernas. E seguimos para o restaurante. A comida é boa, mas muito cara, como de praxe em todo estabelecimento de beira de estrada.

Saímos da Flipoços para a casa dos sogros. Em Poços, tive a oportunidade de me reconciliar com a literatura. Vinha meio arredio. Vocês sabem, né, o Brasil não é nem de longe o país das letras e, lá fora, ninguém se interessa muito pelo que escrevemos. Somos o país do futebol, dos movimentos dos sem-terra, sem-teto, sem-emprego, o país da copa, das olimpíadas e da corrupção. Nada animador.

Mas quando eu redescubro que há uma meia-dúzia de gente neste país que se interessa por um bom debate, acabo me rendendo. Foi o que encontrei na pequena e bela cidade do sul de Minas Gerais. E consegui ler vários trabalhos inéditos, que venho preparando ao longo destes anos. 2013 foi um ano de pouca produção, pois houve uma mudança um tanto radical em nossa vida. Parecia haver tanta coisa mais importante no mundo do que escrever que abandonei a caneta por um tempo.

Mas 2014 está sendo surpreendente. Trabalho, a todo vapor, em um romance, que ainda não sei quando vai terminar, pois escrevo, escrevo e escrevo, mas não encontro um ponto final. A história vai se reinventando. Consegui terminar, logo em janeiro, um livro de micro e minicontos, que se chama Lúcifer e outros subprodutos do medo. Os microcontos, em especial, fizeram sucesso na festa literária. Cito um, cujo título é “Câmbio”:

Uma imagem vale 2056,8 palavras.

De volta, os gatos vêm nos receber e o grito costumeiro de Helena ecoa pela vizinhança paulistana, agitada, impaciente: Bichos, bichos! É a alegria de estar de volta na parte que lhe cabe deste latifúndio. Corre para seu quarto e tira todos os brinquedos da caixa, pois deseja averiguar, conferir se todos ainda estão lá. Nada é mais lógico nesta existência do que nossas raízes.

Comentários

Zoraya disse…
"Nada é mais lógico na nesta existência que nossas raízes". Maravilhoso. Mais uma vez, você nos presenteia hein, Whisner? quero saber do livro!
whisner disse…
Zoraya e Eduardo, mais uma vez grato pela leitura! Um grande abraço aos dois amigos!

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