domingo, 18 de maio de 2014

DE MARÉ, MARÉ, MARÉ >> Eduardo Loureiro Jr.

Minha resolução de ano novo foi ser mais natural: comer mais frutas, verduras, grãos; trocar ambientes artificiais pelo contato direto com a natureza; locomover-me menos a motor e mais com a própria energia de meu corpo. O objetivo está sendo realizado a contento, mas essa semana descobri um efeito colateral...

Percebi-me alternando períodos de ânimo com períodos de desânimo, dias tristes e dias alegres. Não é de hoje que tenho uma certa tendência para o transtorno bipolar ou, usando uma denominação mais antiga, para a psicose maníaco-depressiva. Mas esses próprios nomes, tão pomposos, não seriam apenas uma expressão desse nosso distanciamento científico em relação à natureza? Pois o que tenho sentido, nesses tempos recentes, é que essa alternância de ânimo e de temperamento não é uma mudança brusca e imprevisível, mas um movimento contínuo e cadenciado. Ocorreu-me que talvez se trate de uma maré interna.

Levei muitos anos para saber de que se tratavam as marés marítimas. Se houve explicação em meu tempo de colégio, não recordo. O mar só entrou pra valer em minha vida quando eu já era adulto. Foi quando comecei a caminhar na praia, há dez anos, que descobri que o mar tem duas marés baixas e duas marés cheias por dia, alternando-se a cada seis horas aproximadamente. A altura das marés também varia. Existem marés baixas que ficam realmente ao nível do mar, mas há outras que têm um metro de altura. E também as marés cheias variam bastante seus picos, normalmente entre dois e três metros de altura. O mar seria, então, o psicótico maníaco-depressivo por excelência. Entre uma maré e outra, ele ficaria “normal”, mas sempre uma normalidade que tenderia para a depressão ou para a euforia.

Mas para que patologizar as marés, a dança de roda do mar, se posso naturalizar o meu drama de inconstâncias? Por que não aplicar a mim mesmo o olhar perplexo e apaixonado que lanço ao mar? Por que não aceitar este fluxo que me faz descer e subir, descer e subir, continuamente? Por que não aproveitar a areia úmida e batida das minhas baixas marés para longas caminhadas contemplativas? Por que não permitir a ressaca agressiva e criativa das minhas marés cheias? Eu também deixo fios de espuma e conchinhas na areia quando me recolho. Eu também formo ondas surfáveis quando me expando. Eu também devolvo à praia parte do lixo que em mim despejaram, enquanto purifico outro tanto de impurezas. Eu posso despertar medo e encanto. Eu posso dar caldos e fazer piscininhas. Eu posso me escurecer com as nuvens, me acender com a Lua e resplandecer com o Sol. Eu posso ser o lugar mais quente quando a chuva arrepia em frio. Eu posso refrescar o corpo banhado de suor.

A naturalidade que intencionei para meu ano novo não quis ficar apenas fora de mim. A alimentação e os ambientes naturais me fizeram lembrar da verdade de que eu também sou natural, eu também sou natureza. E assim como a natureza é variada em suas formas, cores e movimento, assim também sou eu: possuo uma unicidade de vida que se manifesta de forma particular, se assemelhando aqui e acolá a outros elementos da natureza, como o meu amado mar.

Além de consultar a tábua de marés oficial, estou agora a observar minhas próprias marés para ver se é possível definir uma tábua, um calendário, que seja útil para mim mesmo e para as pessoas que têm que conviver com meu interno mar bravio. Pois sou pobre, pobre, pobre, de maré, maré, maré. E sou rico, rico, rico de maré de mim.

Partilhar

7 comentários:

Tia Monca disse...

Lindo! Me lembrou da música da Flávia Venceslau.
"Sou filha do mar e na maré mansa
Basta um riso uma esperança
Pra meu peito concertar
Sou filha do mar e na maré cheia
Tiro o barco da areia
Vou-me embora navegar"

albir disse...

Bem lembrado, Edu. Falamos da natureza como se fosse algo fora de nós. Falamos da vida como se não vivêssemos; como observadores e não como viventes.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boa lembrança, Tia.
Vivamos, , Albir.

Lilu disse...

Abençoados teus mares acolhidos, altos, baixos, verdes, prateados, dos peixes, sereias, monstros e arraias, redemoinhos e calmarias. Dos caldos medo. Piscininhas nado. Pouco a pouco adentro...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Lilu, parafraseando Zé Ramalho, você tem a palavra certa pra doutor não reclamar. :)

Zoraya disse...

EDUARDO!!, esta é a segunda vez, só nesses últimos dois meses, que uma crônica sua transforma minha vida. Obrigada, pelo texto lindo e pelo despertar, mesmo não intencional.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya, o mérito da transformação é de quem se transforma. :) Grato por me fazer participar.