domingo, 4 de maio de 2014

TUDO É POSSÍVEL >> Eduardo Loureiro Jr.

— O que você está sentindo? — ele perguntou, como de costume, no início de mais uma de nossas sessões.

Eu tinha uma vaga noção do que estava sentindo, mas não quis falar. Resolvi dizer outra coisa, que eu também estava sentindo, não de maneira geral, mas relacionada à nossa sessão:

— Estou com a sensação de que tudo é possível.


Estávamos na Praça do Ferreira. A Coluna da Hora havia acabado de dar algumas badaladas relativas às 17h30min, embora os ponteiros ainda mostrassem 17h25min. Os prédios altos e antigos, principalmente o edifício do Cine São Luiz, que está em reforma, faziam uma sombra gostosa sobre a praça. O vento, embora não tão forte quanto o de agosto, ativava em mim o reflexo condicionado de procurar por saias dançantes. Ele interrompeu meus pensamentos.

— Ande pela praça e procure uma pessoa com a qual possa sintonizar. Escolha alguém que tenha um sentimento similar ou complementar ao seu. Não é preciso se apresentar para a pessoa ou mesmo ficar perto dela. Escolha-a, observe-a e faça uma conexão, uma ponte emocional entre você e ela. Retorne daqui a trinta minutos.

Eu sempre me senti constrangido em olhar para as pessoas. Tenho medo de que, se alguma pessoa me pegar olhando para ela, eu serei revelado. A pessoa saberá, pelo meu olhar, aquilo que eu sou. Então escolhi uma pessoa não pelo olhar, mas pelo som. Distingui uma voz humana acima do nível normal do burburinho da praça, embora não conseguisse identificar o que estava sendo dito. Me aproximei.

Quem emitia o som era uma pessoa baixa e magra, de pé sobre um papelão. Atrás dela, algumas tralhas cuja serventia não consegui identificar. Talvez material de trabalho, talvez bagagem, talvez tudo que aquela pessoa possuía. À frente, uma lata de leite em pó com os dizeres: “Contribua com o artista”. Aquele era, portanto, um pequeno palco. A plateia se acomodava numa única longa fileira de grandes bancos, distante uns quatro ou cinco metros do palco. Um cine-teatro a céu aberto em que todos tinham o direito de sentar na primeira fila. Encontrei um espaço vago, não exatamente à frente do artista, mas numa diagonal de vista confortável a um seis metros do palco.

O artista falava para a outra diagonal da plateia. Por um lado, diminuía o risco de que ele me pegasse olhando para ele. Por outro, eu não conseguia escutar tudo que ele falava. Então, no início, mais do que no conteúdo da fala, me concentrei nas vestimentas do artista. Era um homem, por certo, mas se vestia de mulher. Levei um certo tempo para perceber que o que parecia uma bermuda era, na verdade, uma saia colada ao corpo, branca, com desenhos em cinza, indecifráveis a distância. A blusa era de alças, amarela, desbotada.

Ouvi, enfim, o que o artista dizia. Ou, pelo menos, tive uma ideia do conteúdo, já que uma a cada três palavras me escapava. Tratava-se de um sermão. Enquanto dobrava e amarrava um pano também amarelo à cabeça, à moda de um lenço, o artista exortava seus desconhecidos irmãos a uma vida mais correta. Fazia isso não com a tibieza de um homem efeminado, mas com a propriedade de um espírito que é homem e mulher ao mesmo tempo, senhor tanto da atividade, que se manifestava na fala, quanto da passividade, que se revelava nos gestos lentos com o pano nas mãos.

Colocado o lenço, ele findou o sermão e pegou um pequeno aparelho entre as tralhas. Era um minúsculo aparelho de som. Esperei que ele colocasse o som no último volume, como costumam fazer aqueles que incomodam o público com seu mau gosto. Não foi o caso. O volume estava em um nível em que eu mesmo não conseguia ouvir. O som não era para a plateia, era para o próprio artista. Ele o colocou abaixo do queixo, não para servir de microfone, mas para que o som chegasse equilibradamente aos seus dois ouvidos. Ele cantava para nós aquilo que ouvia do aparelho. Durante as estrofes, num volume também baixo. Na hora do refrão, ouvia-se com mais nitidez o “aleluia, aleluia”. A performance principal estava reservada para a hora do solo musical. Com a mão que não estava segurando o aparelho de som, o artista fez uma coreografia suave, cheia de curvas, como se estivesse pintando o ar com tintas invisíveis.

Nesse momento, a Coluna da Hora anunciou o fim da tarde com seis badaladas. Levantei-me e segui na direção do artista. Ele não me viu aproximar. Estava olhando, cantando e dançando para o outro lado. Abaixei-me e depositei algumas moedas na latinha de leite em pó. O som das moedinhas chamou a atenção do artista. Antes que meu corpo retornasse à posição normal, minha mão foi surpreendida por um toque ao mesmo tempo firme e suave. Era a mão coreográfica do artista. Nossos olhares se encontraram, mas o que eu temia não aconteceu. Ele não pareceu adivinhar nenhum segredo meu. Apenas agradeceu com a voz e com os olhos. Eu sorri de volta. Sua mão se soltou da minha bem na hora de um novo “aleluia, aleluia”.

Retornei ao meu guia.

— O que você está sentindo agora? — ele perguntou.

— Estou me sentindo um artista.

— Bom trabalho!

Ele estava olhando nos meus olhos e eu esperei que ele dissesse mais alguma coisa. Mas ele não disse.

— É isso? — tentei confirmar.

— É isso — ele sorriu.

— Teremos uma próxima sessão?

— Tudo é possível, artista. Lembre-se disso. Tudo é possível.

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5 comentários:

Debora Lima disse...

Que lindo, Edu.
"Tenho medo de que, se alguma pessoa me pegar olhando para ela, eu serei revelado. A pessoa saberá, pelo meu olhar, aquilo que eu sou." Eu também. Bela experiência. Vivi junto.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Debora.
E pensar que, na edição final, eu quase cortei esse trechinho que você destacou. :)

albir disse...

Parabéns, artista! Pela experiência e pelo texto.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Albir. :)

Zoraya disse...

Que emocionante, Eduardo!