sexta-feira, 30 de maio de 2014

BRINCANDO COM O TEMPO >> Paulo Meireles Barguil

Nas últimas vezes, eu tentei, mas, somente hoje, consegui: comecei a escrever a crônica no dia em que ela será postada!

Não precisarei, pela primeira vez, programar a sua publicação. Esta, portanto, é uma crônica bem quentinha. Quer dizer, para mim, que estou escrevendo, pois não sei quando você irá lê-la...

Sim, eu confesso: durante o meu passeio no Planeta azul, eu tenho brincado com o tempo de várias maneiras, principalmente de corrida. Às vezes, ela é chata, pois eu costumo perder. É difícil fazer algo com prazer quando o resultado — para nós desfavorável — é conhecido antes do final, melhor dizendo, quase isso, uma vez que todos os ponteiros apontam para o mesmo resultado.

Por exemplo, assistir às corridas da F1 quando o Senna competia era muito legal para os brasileiros, pois ele ganhava muitas vezes e foi três vezes campeão mundial. Para quem torcia por outro piloto, elas eram um porre. Nos últimos 22 anos, temos experimentado uma dolorosa inversão de papéis, pois somente pilotos de outras nacionalidades têm alcançado a glória. De modo especial, Schumacher e Vettel, que venceram a metade desses campeonatos.

Essa tristeza, porém, é fichinha diante do corre-corre, cantado por Rita Lee, que estamos, em nossa grande maioria, vivenciando, quando buscamos fora o que somente dentro pode ser encontrado.

Tenho a sensação de que estamos vivendo como as pessoas em Ensaio sobre a cegueira, livro de José Saramago, que foi adaptado ao cinema.

Tal percepção, por vezes, é-me sufocante, por dois motivos: pelo conteúdo do que — acredito que — vejo e por afastar muitas possibilidades de ilusão. Meu consolo é saber, com todo meu ser, que, embora pareça o contrário, a luz está brilhando cada vez mais forte. O que me anima a continuar é acreditar que ainda tenho muitos véus me impedindo de contemplar o paraíso e desfrutá-lo, motivo pelo qual estou decidido a retirar todos os que puder.

Sigo, então, recusando a dose de cicuta, degustada a contragosto por Sócrates e mencionada pela rainha do Rock Nacional, e bebendo uma de se cuida...

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2 comentários:

Georgia Macedo disse...

Muito boa! Parabéns!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Paulinho, muito bom o trocadinho "cicuta" / "se cuida".