quarta-feira, 21 de maio de 2014

SUPERFÍCIES >> Carla Dias >>


Colecionador dedicado de amores vãos, ultimamente anda por aí arrastando silêncio, jurando em pensamento, e em nome de todos os santos, que vai mudar.

Prometeu a si, em momento de rendição — e de esvaziamento de uma garrafa de seu vinho da preferência —, que deixará de ser a pessoa que se acostumou a assumir o cargo de espectador de felicidade alheia.  Na sua cabeça, enxerga a si como um cavalheiro apto a vencer acirrada batalha. Mas dê-lhe cinco minutos, talvez menos, que ele vergará ao suspiro do desolamento, que não foi criado pela sua tia, por parte de pai, para ser homem desonesto com o sentimento.

Ele se sente extremamente desconfortável com a sua realidade. Sonhou em se tornar esportista, e então radicalizar e escalar o Monte Everest. Assim teria uma fotografia que poderia dispor, orgulhosamente, em porta-retratos presenteado pela tia-mãe, ocupante de seu criado-mudo. Um desejo assim, ousado para um homem que se acostumou a trabalhar sentado a uma escrivaninha, fazendo contas para que outros possam ficar com as contas em dia, tem por destino se tornar uma saudade profunda do que nunca aconteceu, e nem acontecerá.

Há dias em que se sente quase feliz. Levanta-se da cama sem se arrastar, como de costume. Há uma eletricidade em seu corpo, uma inspiração incógnita em seu espírito, que lhe dão disposição para gastar algumas horas a fazer coisas que não fazem parte da sua rotina. A sensação dura uma hora, uma hora e meia no máximo. Logo está de volta a sua casa, depois de uma caminhada de menos de meia hora, e arrasta-se de volta à cama, ficando por lá, até anoitecer.

À noite, depois de um dia desses, ele se sente mais à vontade com a vida. Levanta-se, prepara um jantar requintado, enquanto aprecia um bom vinho, escuta o jazz e rumina pensamentos insólitos. Cozinhar é para ele como abrir as portas, as janelas e as pernas da percepção. Daí que liga para a moça que conheceu outro dia, pessoa agradável, mas de quem o nome não lhe agrada, então prefere esquecê-lo e chamá-la “meu bem”, deixando-a feliz ao confundir a escolha dele com afeto. À noite, depois de um dia desses, ele pensa que conseguiu passar a perna na solidão. Só que basta amanhecer, logo ele arruma um jeito de a moça tomar seu rumo, que precisa trabalhar. Funcionário que é de escritório em sala de estar, horário comercial para lá de flexível.

Colecionador de perplexidades, ele se sente aviltado com a violência espalhada pelo mundo. Sua mãe-tia, já na idade do adeus, vive a lhe dizer que violência mesmo é acreditar que sabemos de tudo, que temos as respostas para as questões importantes, que denotam mudanças. Para ela, somos menores do que supomos, mas nem por isso, menos importantes. Menores porque somos parte de um plano maior, que não é de Deus, que a tia-mãe é adepta do ateísmo. É do universo, desse panteão cósmico que nos abriga, enquanto não fazemos sentido algum, até alcançarmos nosso destino e vivermos por um breve momento o sentimento de interação com o universo, e que temos o mau hábito de chamar de felicidade, quando na verdade, é autoentendimento efêmero. Depois de acontecido, vivemos do desejo de nos sentirmos daquele jeito novamente. Vivemos do desejo.

Ele é mais lógico, que acredita que desacreditar em Deus é uma forma de endossar a sua existência. Acaba que acredita mesmo é nas suas planilhas, que nunca erraram na conta de um cliente que fosse.  E em lista de supermercado, que é dos poucos a utilizá-la de cabo a rabo, sem deixar de comprar um item que seja, mesmo que tenha de substituí-lo por um equivalente.

Quem o observa de fora, acaba por enxergar um ótimo executor de tarefas, pessoa centrada, que gosta de objetos alinhados sobre a escrivaninha, enquanto executa a profissão de contador.  O que não sabem é que não demora até que ele, homem bem trajado para trabalhar em sala de estar própria, pare de pensar em números, entradas e saídas e impostos para pensar na vida. E que miudeza ela tem. Que seu espírito vem se espremendo nos acontecimentos para não tirá-lo da linha. Que foi educado para ser um homem capaz de fazer muito bem seu trabalho, pagar suas contas e cometer um ou outro pecado, dignos de perdão automático.  Ainda assim, de acordo com esse manual, ele deveria se deitar e dormir tranquilamente. Não pode dizer que seja o sono dos anjos, que ele não é religioso. Mas certamente ele merece o sono dos justos. Ou não?

Talvez nós estejamos equivocados, eu e a tia-mãe-tia dele.  Talvez não se trate de um colecionador de amores vãos, e seu silêncio arrastado seja apenas badulaque de confissão.  Talvez ele acredite em Deus, até faça o sinal da cruz ao passar em frente às igrejas, e em escalar o Monte Everest, não para ter foto em porta-retratos, mas sim para ter uma história espetacular para contar. Talvez não para seus filhos, que não consegue se imaginar colocando rebentos no mundo com a única pessoa que lhe atende quando a carência grita; que seria péssimo fazer filhos com uma mulher de quem ele desaprecia o nome. Chamá-los como? “Crias minhas?”.

Talvez ele seja apenas alguém em busca de um sei-lá-o-quê. E pessoas em uma situação dessas tendem a transitar entre a realidade e a imaginação. Talvez ele goste da solidão, da raridade dos seus apreços, da contemplação a distância, ou espere que Deus o guie e o ensine a acreditar Nele, na Sua mágica. Talvez não diga o nome da moça simplesmente porque lhe dói dizê-lo se ela não está sempre por perto, tornando o ato uma consequência da saudade.

A verdade é que nem eu, tampouco a mãe-tia-mãe temos acesso às jornadas interiores dele. Que mesmo debruçado na escrivaninha, sobre planilhas, e manuseando calculadoras, fazendo anotações, podemos observá-lo, mas não decifrar seus pensamentos. Lidamos com superfícies ao desejarmos o mergulho.

Imagem © freeimages.com

carladias.com




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5 comentários:

Alberto Lima. disse...

"Lidamos com superfícies ao desejarmos o mergulho".

Meu Deus, que crônica perfeita!

Adriana Freitas disse...

Olá Carla, adorei o texto! Me fez pensar como julgamos as pessoas pela superficialidade, apenas pelo olhar de fora. E também como é possível ficarmos na superficialidade e não permitirmos a entrada do outro em nossas vidas. Obrigada!
Adriana Freitas, psicoterapeuta sistemica em BH, blog: solteirosecasais.com.br

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, essa aí você pode arquivar na pasta "OBRAS PRIMAS". :)

Zoraya disse...

Carla, nem sei mais como me expressar, para dizer o quanto suas crônicas são maravilhosas.

Carla Dias disse...

Alberto... Obrigada!

Adriana... Isso mesmo. A superficialidade de quem oferece e também de quem aceita. Obrigada a você pela leitura.

Eduardo... Olha que me dá o maior orgulho ter uma pasta dessa, meu caro :)

Zoraya... Você faz isso sempre, lendo-as.