sexta-feira, 23 de maio de 2014

DUAS HISTORINHAS DE AMOR BANAIS. MAS FELIZES
>> Zoraya Cesar

Todos queremos viver uma história de amor. Ou duas, ou três. Aquele encontro mágico que vai transformar nossa vida e dar-lhe um sentido além das aparências, além do cotidiano, além da morte. Além das decepções, do trabalho chato, da falta de dinheiro para todas as contas, de ver os sonhos murcharem com o passar dos anos. 

Tudo isso fica pequeno quando vivemos uma história de amor. 

Primeira história 

Artur era romântico e casara por amor. O casamento, no entanto, fora um desastre tão escandaloso quanto surpreendente, pois ele descobriu que a mulher tinha caso com o próprio primo, e toda a família dela sabia. Aliás, ele desconfiava, amargurado, que o mundo inteiro sabia, menos ele. 

Separação, desconforto, humilhação, você fica com isso e eu com aquilo e o advogado dela era melhor, ele ficou com as roupas do corpo e voltou para a casa da mãe. Arrasado, pois acreditava em almas gêmeas, amor eterno, queria casar, não era um homem singular, era plural. 

Vida que segue aqui, vida que segue ali, alguns encontros, mas nada sério. Acabou que ficou quase dois anos sem namorar ou, usando a linguagem popular, sem pegar ninguém. 

E, desfalcado ainda pela limpeza financeira que o divórcio lhe causara, só andava de ônibus. E foi no ônibus que aquela loura pós-balzaquiana sentou-se a seu lado, lendo um livro, óculos de grau, unhas curtas e rosadas. Artur não podia ver ninguém lendo um livro que ficava indócil até descobrir o que era.

Torceu o pescoço todo, tentando olhar de esguelha discretamente, mas a loura percebeu. Percebeu e achou graça, fechou o livro e mostrou a capa. Não era 50 tons de cinza, definitivamente, era uma coletânea de crônicas do Paulo Mendes Campos. Ele quase surtou de enlevo. Tinha adoração pelo conterrâneo. Começaram a conversar, mas... a vida é tão surpreendente, não? 

Em menos de quinze minutos encontraram diversos pontos em comum, até descobrirem que tinham estudado no mesmo colégio, e que ela tivera uma paixonite secreta por ele, dois anos mais velho. 

Sei que o mundo é cruel, estamos todos muito céticos em relação ao amor, mas a verdade é que a paixão que ela tivera por toda a adolescência ressurgiu com tanta força que lhe apareceram espinhas! E Arthur achou-a ainda mais linda. Estão morando juntos, e os três — ela tem uma filha de doze anos — não se desgrudam. Dá gosto de ver. 

Se você, que me lê agora, não acredita em amor, fala comigo, eu os apresento. Garanto que você sai de lá outra pessoa. Uma pessoa melhor.

Segunda história 

A Igreja estava lotada, o que não era de se estranhar, sendo o santo conhecido milagreiro e sendo também o dia a ele dedicado. Então vamos escolher aleatoriamente a protagonista deste caso. Que tal aquela moça gordinha de cabelos cacheados, ajoelhada bem em frente à imagem de Santo Antônio, pedindo... o quê?

Emprego? Saúde? Encontrar algo perdido? Marido? Ah, pensa você, eu sabia! Mulher ajoelhada aos pés de Santo Antônio só pode estar pedindo marido. E ah, digo eu, enganou-se. 

Maria pedia que Santo Antônio afastasse o ex-namorado grudento que não a deixava em paz, sempre dava um jeito de encontrá-la em todos os lugares, choramingando para voltar. Maria era de índole dócil, não sabia mais como afastá-lo, apenas fugia. 

Mas vamos ser honestos. Já que estava aos pés do Santo, Maria aproveitou para pedir um marido, sim, sabia que se o chato do Carlos a visse com outro homem iria embora de vez. E esmiuçou um pouco mais o seu pedido. Queria um homem de uniforme, sempre sonhara casar na Santa Cruz dos Militares.

Os joelhos começaram a doer, as pernas a ficar dormentes, ela levantou e saiu, mais aliviada. Santo Antônio não falhava.  

— Maria, que coincidência te encontrar aqui! Isso é um sinal! Eu sou o homem da sua vida — disse Carlos bem perto do seu ouvido, assustando-a tanto que ela gritou. Algumas pessoas pararam para olhar. 

— Me larga, Carlos, me larga, eu te odeio, me deixa em paz — gritava ela já meio histérica, tendo saído do céu da esperança para cair no inferno da realidade.

Algumas das pessoas que pararam para olhar chegaram mais perto. Cena passional ao vivo era melhor que na novela das oito (a novela das oito ainda passa às oito?). Maria tentava se afastar e o grudento mais parecendo papel pega-mosca (essa é antiga, eu sei, eu sei).

— Larga da moça — uma voz firme e imperiosa interrompeu a agonia de Maria e o tatibitate insuportável de Carlos. — Larga da moça, eu tô mandando, vaza! 

Carlos, como bom amarelão que era, obedeceu. E vou logo adiantando que nunca mais apareceu na vida de Maria.

Seu salvador não se chamava Antônio — seria coincidência demais —, mas Otávio. E Otávio ofereceu-se para acompanhar Maria até o ponto do ônibus.

Sendo o amor uma força poderosa, logo estavam se gostando muitíssimo e querendo outros encontros. Quando ele disse que era policial, aí mesmo Maria se apaixonou. Quando, no entanto, ele disse ser policial civil, que não tinha exatamente um uniforme e que não poderia casar na Santa Cruz dos Militares, Maria apenas sorriu. 

Santo Antônio ajuda, mas você tem que ser flexível.



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11 comentários:

Ana Luzia disse...

quem sabe um dia ainda não tenho uma história assim pra vocÊ blogar, algo bem bonitinho, levinho, cheio de coisas engraçadas e esperançosas pra contar... ai, ai!

bj

Anônimo disse...

Legal!!!

W L disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
W L disse...

Crônicas para aquecerem o coração e trazerem esperanças aos desiludidos hahahaah...

Excelentes textos, dariam bons esquetes teatrais ;)

Anônimo disse...

Deliciosas histórias! Deu alento ao coração nesse sábado chuvoso. Quero ser apresentada ao casal da 1a crônica e ir ao casamento do segundo. Você está uma escritora de mão cheia ou melhor de teclado cheio...beijos...Aglae

Anônimo disse...

Você como sempre nos traz uma surpresa - esta é leve, envolta em esperança de que no fim, tudo sempre dá certo!
Cecilia

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito bom, Zoraya. Amor merece mesmo bis. :)

Anônimo disse...

Que deliciosa leitura! Vontade de ler um livro assim: alegre, doce, suave...Que tal Zo? Aguardo o seu...Yasmin

Erica disse...

Hahahaha. Adorei o desfecho do segundo... Na vida e no amor temos que ser flexíveis. :)

albir disse...

"... com tanta força que lhe apareceram espinhas". Muito bem evocada essa imagem da adolescência, Zoraya.

aretuza disse...

puxa, e com final feliz e tudo! do jeito que vc é, já estava com medo de chegar o Felipe Espada, de haver alguma morte ou coisa parecida! adorei!