quinta-feira, 15 de maio de 2014

SOFÁS, SONHOS E (ZERO) LOUCURA
>> Mariana Scherma

Das frustrações da minha vida: eu nunca me lembro dos meus sonhos. Não estou me referindo aos sonhos de vida, como ganhar na Mega-Sena e ser vizinha do Adam Levine pra vê-lo todo dia passeando sem camisa com o cachorro. Falo dos sonhos de quando dormimos mesmo, do nosso subconsciente em ação. Tem gente que perde vários minutos do dia contando histórias que nem a melhor das imaginações poderia criar. Aquele tipo de história de filme louco francês que você só dá conta de pensar “ahn?”. Eu nunca tenho esse tipo de relato maluco pra contar. E, veja bem, eu amo contar uma história doida.

Uma vez, ao entrevistar uma médica psiquiatra que estuda o sono, fiquei sabendo que todo mundo sonha, sem exceção. A diferença é que as pessoas que podem se gabar de contar suas aventuras oníricas acordam várias vezes à noite e, aí, o cérebro acaba relembrando algumas partes do sonho. As pessoas, como eu, que não têm meia frase de loucura pra contar quando acordam, devem esse fato ao sono profundo. Não acordam na madrugada, não têm história pra contar no trabalho no dia seguinte. Simples assim.

Sempre que alguém me conta um sonho louco fico imaginando a alma dessa pessoa vagando por aí, indo pra outro país e voltando na mesma noite. Reencontrando gente morta. Descobrindo ETs. Tá, eu sei que os sonhos são todos frutos do nosso cérebro maluco, mas acho mais romântico pensar em almas errantes. Porque as almas podem tudo, certo? Meio como se existisse um mundo paralelo onde tudo é permitido, onde todas as almas se encontram e vão à farra. Menos a minha, que prefere ficar dormindo sem se soltar do meu corpo. Adoraria que ela fosse mais desprendida, mais porra-louca. Mas não, ô alma certinha do caramba.

Essa noite, por exemplo, até acordei de madrugada e me lembrei de um princípio de sonho. Estava numa loja de sofás escolhendo a cor do meu sofá novo. Veja bem, trocar o sofá já está na minha lista de coisas-a-se-fazer-até-o-fim-deste-ano. Zero loucura aí. Poderia dizer que a doideira foi a cor que escolhi, um pink meio néon. Mas, pra quem já tem um sofá verde-limão, até que essa cor é previsível. O que me entristece: de todos os lugares do mundo, de um show histórico do Nirvana a uma viagem à Rússia durante a Guerra Fria, minha alma foi escolher justo a loja de sofá a algumas quadras aqui do meu apartamento. Frustração define.

Meu pai disse que esse meu sono profundo e contínuo se deve a minha tranquilidade interior, coisa de gente pura, que não deve nada a ninguém, que pode encostar a cabeça no travesseiro e descansar. Blábláblá. Eu quero encostar a cabeça no travesseiro e viajar. Eu quero me assustar com tudo o que se esconde nos cantos obscuros da minha mente. Eu quero ser essas jornalistas que acordam com uma ideia pra um livro e ficam milionárias com uma saga. Mas meu subconsciente só alcança a loja de sofás mais próxima. Tão normalzinho. 


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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mariana, cuidado com o que deseja... :)
A sua prosa é de uma loucura nota 10. :)

Mariana disse...

Obrigada, Eduardo! Que elogio mais gostoso pra se começar a sexta :)

albir disse...

Mariana,
Pelo que vejo, tua imaginação compensa aquilo que o sonho te nega.
Muito bom!

Zoraya disse...

Bom demais, Mariana, não sei porque, mas morro de rir com suas desventuras! Valeu, beijos