quinta-feira, 1 de maio de 2014

UMA VIAGEM EM CADA CHEIRO >> Mariana Scherma

Já perdi as contas de quantas vezes vi o filme Alta Fidelidade, baseado no livro de mesmo nome do Nick Hornby. Adoro a trilha sonora, as sacadas e, sobretudo, a interpretação de John Cusack para o personagem Rob. Um fim de semana desses, reprisou em algum canal e lá fui eu pela 1894ª vez assisti-lo. Quase no fim, eu me deparei com essa frase do Rob, citando as cinco coisas que mais sentia falta da namorada, uma delas era o cheiro: “I miss her smell, and the way she tastes. It's a mystery of human chemistry and I don't understand it, some people, as far as their senses are concerned, just feel like home”. [Sinto falta do cheiro dela, e de seu gosto. É um mistério da química humana e eu não compreendo, mas algumas pessoas, no que se refere aos seus sentidos, são como se sentir em casa. ] Concordo demais. O cheiro é uma viagem muito subjetiva. Algumas vezes nos leva pra um lugar ótimo, outras é o tipo de viagem que não faz falta, não... Tipo aquela ida à praia lotada, com falta d'água e trânsito péssimo.

A coisa que mais adoro nos cheiros é como eles nos transportam pra épocas que nossa memória nem sempre 100% se lembrava. Quantas vezes já não andei pela rua, senti o aroma do feijão saído da panela de pressão e fiquei pensando no feijão da minha mãe. Sou maluca por feijão. Talvez porque, mesmo com 30 anos nas costas, meus pais ainda acham que é melhor eu não ter uma panela de pressão, sob o risco de incendiar o prédio onde moro. Veja bem, moro longe deles desde os 18, nunca queimei nada na cozinha, mas acho digno respeitar essa vontade deles. (Parênteses necessários: troféu melhor filha do mundo vai para... ?).

Também já quis fazer amizade e pedir um prato de comida na casa de pessoas desconhecidas por conta do cheiro de bife acebolado e molho de tomate. Café, então... Ainda vou invadir uma casa na esquina no meu caminho pra academia pra tomar um gole de café. Que café cheiroso! E olha que amo meu café (é das poucas coisas que sei fazer bem). Quando era criança, já fiz meu pai pedir um pedaço de carne do churrasco do vizinho da minha avó. Por que a gente cresce, né? Ser criança facilita esses momentos. Já coloquei meu pai e minha pai em cada situação que deve ser por isso que respeito a vontade deles a respeito do item panela de pressão. Só pode.

Quantos perfumes já deixei de usar e passei pra frente porque me lembravam antigos romances. Era passar um pouco e voltar à história automaticamente. A sorte é que mamis está sempre pronta pra receber um perfume seminovo, carregado nas recordações. Até hoje passo longe de vinagre por conta da minha boa memória olfativa. Quando era criança, veio uma epidemia de piolho na escolinha que frequentava. Eu chegava em casa e minha mãe lavava minha cabeça com vinagre. Eu, sempre louca por banho, tive meu momento tudo-bem-ficar-sujinha, porque ô cheiro do capeta! Me transformei numa pessoa que detesta vinagre, que tem ânsia quando sente o cheiro e que faz cena quando, sem querer, come algo com o tempero. Nunca tive piolho, é verdade. Mas talvez o cheiro do vinagre tenha afastado alguns amiguinhos, além das pestes-sugadoras, claro. Minha mãe não passou açúcar em mim, preferiu vinagre, olha só...

Mas o cheiro que me traz a melhor das recordações é o de roupa limpa. Sabe aquele aroma de amaciante gostoso? Vale mais do que todos os perfumes importados do mundo. Esse cheiro me lembra carinho, amizade, proteção, sono até tarde no domingo, travesseiro fofo. Quando conheço alguém com cheiro de roupa limpa, sei que pode ser o começo de uma boa amizade. É o cheiro que vale por um abraço forte. Gente que sai de casa com roupa cheirosinha é como se dissesse: sou gente boa, pode confiar. É gente que merece um abraço forte, fala aí! É gente que definitivamente faz a expressão nordestina "venha me dar um cheiro" fazer sentido.

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2 comentários:

albir disse...

Verdade, Mariana, o cheiro é uma espécie de música. E a que nostálgicas viagens ele nos remete!

Aline disse...

super me indentifiquei!! sou louca por muitos cheiros e pelas viagens que faço na memória por causa deles, além de odiar outros! gostei bastante..