Pular para o conteúdo principal

MEDITAÇÃO >> Carla Dias >>



Há esse eu vivendo dentro de mim, só que meio estrangeirado, que eu não entendia o que o tal dizia, ele que vivia encolhido num canto do mapa do meu pensamento, nos arrabaldes do meu espírito. Houve tempo que desejei conhecê-lo, como se ele fosse aquele artista de quem se gosta tanto, mas de um tanto, que se sente o desejo pungente de encontrá-lo pela manhã e pedir para que confesse seus sonhos, assim, entre um gole de café e uma mordida no croissant.

Meu cárcere é público
Uma vitrine de dolências
Onde me reviro até alcançar o avesso
E nem sempre é o meu

Percebe?

Como se percebe um quadro torto
Numa parede torta
Trazendo à tona
Sentimentos tão tortos quanto o quando

Só que ele fala em dialeto por mim desconhecido, às vezes até berra as palavras que soam feito urgências, mas quais? Não é apenas o fato de não me entender com ele, ou entendê-lo, ou ser capaz de olhar em seus olhos e fisgar ajustes, em vez de delegar ao destino o direito de impor ao meu eu forasteiro a solidão. Há mais por detrás das nossas máscaras análogas, das nossas mãos enleadas na hora do pânico, da alegria, do contentamento, da mágoa.

Quando laços não só enfeitavam pacotes
Mas também garantiam veracidade
Aos sentimentos e à bagunça
Que se instalavam nas almas não precavidas

Almas desencanadas por opção
Mas não opção de Deus
A Ele não cabe essa culpa
Ou essa graça?

Como este momento em que ele me arrebata com perguntas das quais reconheço somente o ritmo interrogativo. Eu sei que ele necessita saber, mas o quê? Como deseja? Será ele capaz de abrir mão do que eu jamais abriria? De fugir do que a mim prende e repreende e subjuga?

Quando os olhares não embarcavam em fragatas
Não se escondiam em lamúria
Embeveciam-se de uma paz caricata
Porque na felicidade a gente exagera mesmo

E nos permitíamos saborear ventanias

E uma delas levantou a saia da certeza
Embebedou-a de desjeitos
Fartou-lhe de desafetos
Emburrou a inábil dançarina

Um dia me disseram que somos mais de um, e que mesmo cientes disso, dessa dualidade, buscamos nos tornar exclusivamente um ao nos misturarmos a outra pessoa. Mas se somos mais de um, não poderíamos nos misturar a nós mesmos em busca de nos tornarmos um? Que dois será sempre par, mas não um. Por serem dois, complementam-se.

Veja-me bem nesse cárcere
Curvada feito clave de sol
Sem sol ou janela ou beijo nas faces
Sem noite tranquila de sono

Sou da órbita da clausura e das distâncias

Meus olhos navegam pela paisagem, enquanto o espírito mergulha em si, obcecado por reconhecer seus cômodos e incômodos. A canção interior, entoada pelo outro eu, é lenta e melancólica, incompreensível em palavras, eficaz no escancarar com o sentimento. Sinto-me feliz de felicidade gritante. Sinto-me triste de profundeza abismal. A voz do tempo me segreda que um dia os sentimentos se misturarão, e que assim eu poderei compreender essa linguagem do outro que vive em mim. Saberei como escutar e como dizer.

Até lá, resta-me contemplá-lo.

Imagem © Mônica Côrtes
Citações: poema “Cárcere” © Carla Dias

carladias.com

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …