quarta-feira, 28 de maio de 2014

MEDITAÇÃO >> Carla Dias >>



Há esse eu vivendo dentro de mim, só que meio estrangeirado, que eu não entendia o que o tal dizia, ele que vivia encolhido num canto do mapa do meu pensamento, nos arrabaldes do meu espírito. Houve tempo que desejei conhecê-lo, como se ele fosse aquele artista de quem se gosta tanto, mas de um tanto, que se sente o desejo pungente de encontrá-lo pela manhã e pedir para que confesse seus sonhos, assim, entre um gole de café e uma mordida no croissant.

Meu cárcere é público
Uma vitrine de dolências
Onde me reviro até alcançar o avesso
E nem sempre é o meu

Percebe?

Como se percebe um quadro torto
Numa parede torta
Trazendo à tona
Sentimentos tão tortos quanto o quando

Só que ele fala em dialeto por mim desconhecido, às vezes até berra as palavras que soam feito urgências, mas quais? Não é apenas o fato de não me entender com ele, ou entendê-lo, ou ser capaz de olhar em seus olhos e fisgar ajustes, em vez de delegar ao destino o direito de impor ao meu eu forasteiro a solidão. Há mais por detrás das nossas máscaras análogas, das nossas mãos enleadas na hora do pânico, da alegria, do contentamento, da mágoa.

Quando laços não só enfeitavam pacotes
Mas também garantiam veracidade
Aos sentimentos e à bagunça
Que se instalavam nas almas não precavidas

Almas desencanadas por opção
Mas não opção de Deus
A Ele não cabe essa culpa
Ou essa graça?

Como este momento em que ele me arrebata com perguntas das quais reconheço somente o ritmo interrogativo. Eu sei que ele necessita saber, mas o quê? Como deseja? Será ele capaz de abrir mão do que eu jamais abriria? De fugir do que a mim prende e repreende e subjuga?

Quando os olhares não embarcavam em fragatas
Não se escondiam em lamúria
Embeveciam-se de uma paz caricata
Porque na felicidade a gente exagera mesmo

E nos permitíamos saborear ventanias

E uma delas levantou a saia da certeza
Embebedou-a de desjeitos
Fartou-lhe de desafetos
Emburrou a inábil dançarina

Um dia me disseram que somos mais de um, e que mesmo cientes disso, dessa dualidade, buscamos nos tornar exclusivamente um ao nos misturarmos a outra pessoa. Mas se somos mais de um, não poderíamos nos misturar a nós mesmos em busca de nos tornarmos um? Que dois será sempre par, mas não um. Por serem dois, complementam-se.

Veja-me bem nesse cárcere
Curvada feito clave de sol
Sem sol ou janela ou beijo nas faces
Sem noite tranquila de sono

Sou da órbita da clausura e das distâncias

Meus olhos navegam pela paisagem, enquanto o espírito mergulha em si, obcecado por reconhecer seus cômodos e incômodos. A canção interior, entoada pelo outro eu, é lenta e melancólica, incompreensível em palavras, eficaz no escancarar com o sentimento. Sinto-me feliz de felicidade gritante. Sinto-me triste de profundeza abismal. A voz do tempo me segreda que um dia os sentimentos se misturarão, e que assim eu poderei compreender essa linguagem do outro que vive em mim. Saberei como escutar e como dizer.

Até lá, resta-me contemplá-lo.

Imagem © Mônica Côrtes
Citações: poema “Cárcere” © Carla Dias

carladias.com



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