quarta-feira, 7 de maio de 2014

PENSE >> Carla Dias >>


Você não pode estudar, porque é mulher. Não pode amar alguém do mesmo sexo, porque é pecado. Está proibido de ser bem-sucedido, porque é negro. Nem pense em ser admirado, porque é magro ou gordo demais. Você não pode ser bem cuidado, porque é pobre. Não pode ter educação de qualidade... Pra quê?

Restrições culturais, religiosas e sociais, assim como o mais puro preconceito, são alimentos para a ignorância e a intolerância. De outra forma, as meninas da Nigéria estariam em suas casas, pessoas que foram assassinadas porque eram gays estariam vivas. Negros não seriam boicotados e humilhados por conta da cor de sua pele. Meninos e meninas cresceriam sem a cutucação incessante de que são imperfeitos, de acordo com as capas de revistas. Os hospitais de periferia teriam condições e bons profissionais para atender bem aqueles que precisam. O ensino público seria inspirador para pensantes.

Eu sei que há mais sobre o mundo do que a violência. Faço questão de me manter atenta aos que, às vezes mergulhados na mais profunda solidão ideológica, fazem o bem aos que desse bem precisam. Apesar de ruminar uma tristeza tamanha pelas ações de muitos, ainda acredito no ser humano. Caso contrário, desacreditaria a minha própria capacidade de benquerer aqueles que me cercam, eles que dão significado à minha vida. Porém, fica impossível não lamentar profundamente a involução da nossa espécie, já que, pelo visto, muitos ainda não alcançaram a plena compreensão de que somos responsáveis pelos nossos pensamentos e ações, e isso inclui a incitação à violência cometida em nome de uma justiça fantasiosa.

Linchamento é o tipo de coisa que me faz pensar em involução. Achar-se tão digno de ser o juiz imediato de uma pessoa, engolindo todos os direitos de defesa dela, baseando-se em disse me disse. Assim, fácil, fácil, você tira a vida de uma pessoa.

Quando falamos em tomar cuidado com as informações que compartilhamos, nas redes sociais e durante os bate-papos com amigos e familiares, também falamos sobre essa responsabilidade à qual pouco se dá importância. A força que colocamos na replicação de uma notícia, de um acontecimento, pode funcionar para o bem ou para o mal. Além do mais, queremos mais do que atuar como meros compartilhadores de informações, certo? Então, que sejamos mais honestos com as nossas crenças e desejos. Que colaboremos com o que realmente acreditamos ser algo bom. É que um ponto de vista muito bem colocado pode inspirar alguns a levarem a teoria alheia à prática. Novamente, para o bem ou para o mal.

E assim voltamos ao básico: informação é poder, e quase sempre também é mentira. Se não formos capazes de respeitar essa possibilidade, de averiguarmos a verdade, continuaremos a oferecer munição aos que acreditam que sua interpretação dos desejos de Deus é lei. E que privar pessoas do direito de ser, e da liberdade de escolher os seus próprios caminhos, é correto. Que a intolerância e o preconceito são cabíveis.


Imagem © quadro de Jean Hippolyte Flandrin

carladias.com

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Carla...
Há que se ter cuidado com as palavras. Sempre!

Carla Dias disse...

Eduardo... Sempre.

Carla Dias disse...

Eduardo... Sempre.