segunda-feira, 12 de maio de 2014

COURO DE LOBISOMEM >> André Ferrer

Quando surgiu no cenário internacional, Lula causou certo movimento na imprensa. Trataram-no mesmo como uma versão tropical do Lech Wałęsa. Um prato cheio para a eterna campanha política do PT no Brasil. Hoje em dia, está claro que foi mais pelo exotismo da figura do ex-presidente do que pelo seu conteúdo. Quem vai às fontes originais, na imprensa internacional, e sabe filtrar as mentiras e distorções incorporadas às notícias vindas de fora, está consciente de que se tratou de uma chuva de verão.

Recentemente, Lula foi a Portugal, onde declarou que o Poder Judiciário brasileiro conduziu o julgamento do Mensalão de forma duvidosa. “O tempo vai se encarregar de provar que no mensalão você teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica” disse à emissora de TV RTP.

Algumas semanas depois, no mesmo programa e no mesmo canal, Ney Matogrosso criticou o governo brasileiro e, principalmente, os caminhos escolhidos para o tão propalado combate à pobreza.

Na opinião dele (que, hoje em dia, não é uma exclusividade da direita), os programas sociais do PT poderiam atender por outros nomes. Para Ney (e para muitos brasileiros), o Bolsa Família é uma política de troca de favores e, jamais, uma relação cidadã envolvendo direitos e deveres.

As declarações do cantor em Portugal incomodam porque têm peso. Trata-se de um artista respeitado na América Latina e em todos os países lusófonos. Tem uma carreira respeitável e legítima, baseada na sua voz, na sua presença de palco, no seu grande talento interpretativo. Neste caso, é um discurso verdadeiro feito por um mestre da encenação. No caso de Lula, a interminável e mal-ajambrada encenação de um político profissional. Aliás, o tipo de encenador sem talento algum, que interpreta os piores roteiros escritos pelo pessoal do marketing partidário.

Nessa linha de raciocínio, Ney Matogrosso é de longe mais confiável e seria ótimo que as personalidades do nosso país tomassem os seus devidos lugares como formadores de opinião. De maneira responsável e verdadeira, é claro, como fez o cantor. Nos palcos do meio artístico e nas bancadas do telejornalismo, fala-se muito dessa responsabilidade, porém o que mais se vê e o que mais se escuta é pura hipocrisia.

Quanto ao Bolsa Família, programa criticado pelo cantor na entrevista à emissora portuguesa, a obrigatoriedade de manter filhos na escola depende de fiscalização. Há fiscalização? Há muitos direitos e poucos deveres nesse caminho duvidoso para a erradicação da pobreza que, da forma como existe, mais parece um eficiente sistema de compra de votos. Uma ilegalidade disfarçada de programa social.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

André, a coisa não é tão "branco no preto" em nenhum dos dois lados. Nem o Bolsa Família pode apenas servir como instrumento eleitoreiro nem o Ney Matogrosso tem uma opinião tão imparcial assim. Aqui no Brasil a gente julga muito, pensando que o certo está de um lado e o errado, do outro. Mas não é assim: há certo e errado em cada lado.

Unknown disse...

O que me chamou mais a atenção na entrevista foi a "dificuldade" de o jornalista português acreditar no que o Ney estava lhe contando. Só faltou dizer "Mas como, o Brasil não é aquele país das maravilhas que nos venderam aqui na Europa?"...