quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

ATINADO >> Carla Dias >>

Com seu olhar amarrando distâncias, a voz quase calada de vez, tem por hábito tecer os dias com as novidades inventadas. Pensa em poesia para dizer cruezas da realidade. Cria versos com lágrimas e gargalhadas. Acredita ser curandeiro, e com seu talento, fazer a tristeza aquietar. Soletra palavras quaisquer para melindrar ritmos: b-á-l-s-a-m-o é das que mais gosto de ouvir, assim, fragmentada.

Eu costumo esquecer da vida quando ele está por perto, porque a minha realidade é atingida em cheio pela cumplicidade doidivanas dele. Leva-me, quase sempre, de encontro aos meus fantasmas, eles que seguram cartazes com ameaças coloridas: há de chegar o dia, minha cara, que nenhuma máscara sua suportará a verdade de quem é você.

Eu rezei aos deuses, e foi mais de mil e tantas vezes, pedindo para que ele me goste diferente. Assim, eu o teria tatuado na minha rotina reticente. Haveria, enfim, uma boa chance de eu despetalar amor sem parti-lo ao meio, vide esse adjetivo que é um dos que me definem: desastrada. E partir amor ao meio não é bom, não mesmo.

Gostaria de colocar flores em seus cabelos, enquanto o vento faz com que dancem as roupas nos varais. Enfeitar seus cabelos de jardins secretos, de cores, e espalmar mão para receber o apreço do toque. E que enquanto ele monopoliza o som, dizendo sentimentos que não devo ter, a boa sorte outorgasse a mim o direito de continuar essa caminhada.

E naqueles segundos, quando os ponteiros do relógio endoidecem, ele credita ao tempo o direito ao atraso, contanto que, logo mais, ele possa perceber a hora que é a de partir... E parte.

E eu fico: o sonho atinado, a espera pela volta dele em andamento.

carladias.com



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que bela cantada! :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Uma pena que nem todos têm o coração aberto às belas cantadas :)