sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

JAZZ >> Leonardo Marona

Não era saudade. Não era esse o sentimento. Não era nostalgia, era pertencer ao tempo errado. Era poder olhar. E olhar é não pertencer. Estava apenas tendo uma atitude mitológica: “a saudação ao provedor do amor”. Quantos dirão que isso significa que lá estava o pai da minha namorada, e que ela seria muito em breve uma antropóloga e sabe-se lá quantas estruturas não desabariam em breve diante de nós, a partir dos questionamentos sobre causa humana?

Antes fosse esta a real questão. Porque existe o real, tanto que tivemos que inventá-lo. Mas o problema verdadeiro e a parte mais intrínseca do problema é que se tratava do pai da minha namorada, futura antropóloga, que aqui dorme aos meus pés, e esse pai era acima de tudo um baterista. Se existe uma idéia de coração para a música, o piano não passaria de um rim. Como é técnico o amor de duas mãos sozinhas com teclas. Estou aqui e sei o que estou dizendo. E quem lê este texto sabe também o vício de que sofre, no mínimo, alguém que admira tal frágil interação. Apenas teclamos em preto e branco, e com isso não passamos do princípio das coisas. E o princípio, por ser vago, interessa muito, mas revela muito pouco.

Acontece que um baterista, um baterista bate com o coração do tempo. Se todos falharem, mas o baterista não falhar, a música permanece, e com ela o tempo, porque a música é o tempo enlatado. Mas se o baterista falhar não há música, e não há tempo, e não passamos de latas abertas á podridão. Estamos diante de um paradoxo. O menos lembrado, é justo dizer, mantendo a lembrança do que julgamos mais importante. Porque quem é que pensa no próprio coração, se não para escrever cartas de amor, que são sempre ridículas, e as coisas mais vivas em nós? O mais ridículo é que continua batendo, mesmo mortalmente ferido. O ridículo de tudo é a continuação do ridículo, porque disso não abrimos mão, sem isso não sobrevivemos.

O mais importante é que estamos famintos, cansados e de saco cheio. E isso existe no blues há mais de cem anos. E cem anos, mais do que nunca, é muito tempo. Mas não falemos em nós por ora, falemos da sensação ancestral de ser algo como muitas vezes se foi e se parou de ser para se cuidar dos gatos e morrer de tédio no sofá diante da mãe viciada em pílulas. Isso significa “entrar no ritmo da coisa”. E, muito bem, lá dentro existe este homem sorridente, não muito bonito em particular, mas que vem a ser o “provedor do amor” do seu amor, que senta ao lado com um belíssimo coque, exibindo como nunca um excelente pescoço modiglianesco. E esse homem não usa teclas, usa pedaços de pau. E ele não passeia festivamente pela música, ele estabelece a música. Portanto, estás abaixo dele, já que apenas passeias. E isso fica na cabeça por pouco tempo, já que ao mesmo tempo presencias. E o que presencias é algo que vem de uma lufada de sentimento tribal, de sentimento exclusivista partilhado ao meio com abutres e técnicos e adoradores, e são os mesmos pés destes homens que, quando paras para sentir, estão surrando o chão com passo marcado e sentes ser o próprio Kerouac compensando a limpeza das entranhas dos frangos, mas tu mesmo tens as entranhas do frango agora e queres compensá-la, então fecha os olhos e sente os pés, falsos pés muitas vezes, mas firmes eles tornam-se verdadeiros, mesmo sem entender a música, porque ela existe e estás nela mas não podes tocá-la, como a base de qualquer sonho, e dos sonhos és ensinado a, ou se envergonhar, ou estragá-los em palavras.

Preciso me esquivar até o banheiro, fechar a cabine e sentar sobre a tampa da privada, abrir um caderno ridículo de rascunhos cor-de-rosa e apenas deslizar como tentativa frustrada de me fazer em música sem membros, disparar minhas letras como um judeu diante de um pelotão convicto. E são letras ilegíveis e muito suor no rosto, diante de uma luz de teatro, sentado na privada. Letras ilegíveis que tanto amo, porque algo em mim foi hoje ferido a ponto de ser possível amar até mesmo o que sempre me destruiu. Mas hoje, sentado na privada do banheiro da casa de espetáculos, sinto ao menos o piso palpitando e por isso sei que sou fraco, mas não estou sozinho e, além do mais, tenho um coração. E os olhos já dizem, não escondem as drogas dentro dos bolsos. Mas aqui estou mesmo assim, imune, entregue, suando em bicas, vestindo minha camisa amarela com o retrato de Edgar Poe – pobre Poe, ele também sabia – brilhando em preto, somos apenas garis das expressões complicadas e melhor seria termos todo aquele esmero, aquele brilho em nossos instrumentos, mas então seríamos moscas sem aranhas – volto eu a falar em nós – e o que é uma mosca sem uma aranha, além de um ser que vive por um dia?


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que pérola, Léo!
Parece tema de redação, "O primeiro encontro com o pai de sua namorada", aí vem você com essa prova maravilhosa!