sábado, 8 de janeiro de 2011

SÍNDROME EMOCIONAL [Debora Bottcher]

Não consigo evitar: todo começo de ano uma melancolia me assola. Começa logo no segundo dia: tenho pesadelos durante a noite e, pela manhã, penso que não vou conseguir me levantar da cama.

Não é tristeza, é um estranho inexplicável. Como se esse desconhecido que se apresenta - o Ano Novo -, que detém o destino à espreita, sob seu comando, fosse 'alguém' que oferecesse perigo iminente. Assim, um medo me invade e está decretado o desconforto, que sela os dias seguintes com um quase desespero, e me vejo à deriva num oceano de emoções turbulentas.

Esse costuma ser um processo solitário - como falar disso com alguém? Sendo algo recorrente, quem compreenderia sem julgar-me à beira de um colapso de loucura? E, afinal, quem poderia me afagar o sobressalto e garantir alguma paz?

Acontece que essa semana, com os 'nervos' menos aflorados, pensei se essa sensação seria exclusivamente minha. E ocorreu-me: "E se um monte de gente se sente assim e não compartilha, pelas mesmas razões que eu?"

Por isso hoje me exponho, escancarando esse sentimento que é quase uma dor, de tão latente e angustiante. E talvez porque, no oitavo dia, já seja possível falar sobre isso sem constragimento, uma vez que o incômodo é mais ameno e posso dizer que, afinal, não aconteceu nada de mais até aqui: não há tragédias, inconvenientes, nada que possa, de fato, ameaçar a tranquilidade - interna ou externa.

Ou seja, os dias transcorrem normalmente - e também, numa análise menos superficial, divago que, talvez, essa possa ser uma das razões da melancolia. A gente cria expectativas nessa época e como a vida segue, sem interrupção, alheia ao calendário, seu curso cotidiano, ficamos assim, meio reféns da normalidade.

Bom é que passa - a rotina se instala, o trabalho recomeça, as providências diárias minimizam conturbações sentimentais. E na Quarta-feira de Cinzas essa 'síndrome' volta a me habitar. Mas para a ocorrência desse 'evento' nessa data, nem consigo formular uma especulação...

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ih, Debora... tem coelho nessa cartola. :) Vai puxar o bicho pela rabo?

Debora Bottcher disse...

Valha-me, Eduardo... Faz-me rir... E isso afasta o 'bicho', né? :) Beijo, meu amigo...

albir disse...

Não se preocupe, Debora, não lhe falta companhia na angústia humana de viver. Solidariedade ajuda, mas não resolve. Abraço.

Marilza disse...

Debora, fique tranquila. Compartilho do mesmo sentimento. O calendário muda indiferente às nossas angustias, os dias se vão e o desconforto também...
Abs

Nick Pink disse...

Minha mãe outro dia disse que acha o início de ano meio melancólico... Pode ser, no fundo a gente sempre tem medo do novo, mesmo que nada mude, o ano é novo... Muito bom o texto!

Seguindo!
Abraços!

http://vivereler.blogspot.com/