segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O VERBO >> Albir José Inácio da Silva

- Seu marido foi embora, né?

- Como é que a senhora sabe? Eu ainda não falei nada.

- Iemanjá sabe tudo, minha filha.

- E o que mais diz Iemanjá?

-Iemanjá diz: “trago seu homem em três dias”.

Pagou, beijou a mão da madame e saiu com o coração aos pulos. Será? Deve ser. Iemanjá não mente. Devia ter vindo antes. Tantos meses de sofrimento.

Um dia ele pegou a mala e disse vou pra São Paulo. Não teve choro nem desmaio nem pergunta que ele respondesse. Viu quando entrou no ônibus sem se virar. Andou como louca pelas ruas, depois foi pra casa e chorou todos os dias.

Não é que não acreditasse. É que sua desgraça era tanta que achou que não tinha jeito. Só com muita falação das comadres é que resolveu fazer a consulta. Agora era esperar. Três dias.

No primeiro dia vieram dizer que ele tinha chegado no ônibus das seis. Arrumou a casa , fez o peixe e comprou a cachaça. Ele não veio.

No segundo, soube que ele perguntou por ela. Lavou os cabelos, botou perfume, e ele não veio.

No terceiro dia, foi a rua e viu que ele comprava flores no mercado. Correu pra casa a esperá-lo. Vieram dizer que ele entrou no mar com as flores. E não voltou.

Madame não estava satisfeita. Iemanjá não costumava fazer essas coisas. Por que prometeu, se não ia entregar? Da janela, viu a menina na praia, encolhida, de frente pro mar.

Olhava as ondas sem entender. Por que, Iemanjá? Por quê? Estava infeliz, sem marido, mas tinha esperança de ele voltar. E agora? Pra que essa história de “trago seu homem em três dias?”

À noite, na feira, uma viola chorava o falecido morto pela armadilha verbal:

- No fundo ninguém conhece
os mistérios de Iemanjá
e ninguém nunca se lembra
do velho verbo tragar.

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12 comentários:

Léo Santos disse...

Parabéns! Muito bom mesmo. O final me surpreendeu, eu realmente nunca tinha parado pra pensar nesse duplo sentido.

Um abraço!

fernanda disse...

Genial!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Pois é, Albir. E imagine quando o cartaz diz "TRÁS o seu amor em três dias". Aí é que a gente não tem a mínima ideia do que irá acontecer. :)

Claudia Letti disse...

Albir querido, que maravilha, hein!?
Beijo grande!

Marilza disse...

ALbir, muito bom! Parabéns!

Marisa Nascimento disse...

Maravilhoso, Albir! E bela lembrança à Iemanjá na proximidade do seu dia. :)

albir disse...

Léo,
obrigado. Um abraço!

Fernanda,
generosa. Obrigado!

Edu,
acho que a solução é o Código de Defesa do Consumidor, que dá vantagem ao menos favorecido em caso de dúvida.

albir disse...

Cláudia Letti,
professora, que saudade! Beijo!

Marilza,
obrigado. Volte sempre!

Mariza,
obrigado e axé!

Carla Dias disse...

Ótimo texto, Albir!
Lembrou-me uma canção que adoro, chamada ESPERA. Se tiver tempo, vá ao site www.kleberalbuquerque.com.br, clique em DISCOGRAFIA, depois no disco PARA A INVEJA DOS TRISTES. Lá você poderá ouvir a canção e ler a letra. É muito bacana.
Beijos!

albir disse...

Carla,
gostei muito de letra e música. Salvei Kleber Albuquerque no favoritos para ouvir mais.
Beijos!

Carla Dias disse...

Que bom que você gostou da música, Albir. E vale a pena escutar outras músicas do Kléber... Mas é uma fã de carteirinha quem dá a receita : )
Beijos!

Cristiana Moura disse...

ADOREI!