sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

IMPACIENTES PELO BUQUÊ
DO INSTANTE RALO
>> Leonardo Marona

São doses de álcool e eu, espinha repentina, sou portanto. Que me envergonhe de mim mesmo é o mínimo. Como posso me vangloriar do que tenho certeza? Primeiro que é ridículo gritar no vácuo. Digo: como posso dizer a palavra certeza em meu benefício? Cadafalso, cadarço juvenil, relação peso-quadril. Se a derrota não é certa na cabeça, mas conivente na atitude, que importa mergulhar nas horas que te fazem traquéia escura de sangue? Qual a relevância em pensar nas realidades inevitáveis (se criamos a realidade astuciosa em rugas)? Existem perguntas que eu faria a noite inteira, em busca de olhos vivos, ou cômodos embranquecidos para morrer em crase. Mas é mentira: olhos mortos – a criação do vento escolhe não ser areia – todos vivos apenas em frases comportamentais. Trata-se apenas de um erro típico do fim de tudo, conjugado simples como as costas dela infladas ao sono madrugado em sexo, confiscado de rito soprado pelo escudo do tempo, rajada de sem comício em lona, olho de luz branca, sem rebatedor. NÃO GOSTO DO CINEMA. Só se fala sobre isso. E se algo é sobre falado, não gosto. Me irrita falar quando morre gente preocupada em fazer carreira fantasiada de mito com cabelos escovados em naja cômica. Como se (D)ali estivesse a essência da derrota benéfica numa chave de braço (Sur)real. Mas disfarça-se a impressão de si próprio. Existe gole de conhaque que te faça santo? Não, mas, derrubado, posso lambê-lo. É isso que me importa enquanto estivermos mortos. A dose do líquido esquecida na sala branca sem quadros de nós, olhos ocos Lautrec, no passado vivo com pernas bilíngües. Paralisia infantil no sonho maternal. Linguarudos sucedidos corrigem acertos fálicos. Pessoas esperam na porta vazia dos rangedores românticos iletrados. Palavras, som e sal, corrigem arrepios natimortos. Novamente locuções de outra vez nós dois, dedicados ao esmo vesgo. Eu lambo línguas imaginando penas no banco de areia – e se não fosse o mar por qual te amo – apenas porque sei que só poderia sentir isso uma vez por mês – mesmo assim te falo coisas bonitas entre vírgulas espanholas, sendo que sou italiano falso. Escreve-se mal para se ser aceito n’aquilo que não se soube ser novo na hora que se passou errada – como se fosse possível – confortavelmente em letras. Porque se sabre pela raça humana, mato pelo quê? O que é inviável ao ego em chamas, lâmina de fio duvidoso, mas falante, na cama do fosso saudável, café-preto ralo, aperitivo ótico da beleza solitária em tábuas que falam sempre que penso amém.
"o casamento"
gostaria de saber de vocês, homens e mulheres da minha vida,
como poderia se casar um poeta.
seria com ostentação que ele faria
a celebração silenciosa da dúvida?
creio que a pobreza e as poucas posses
impedem certas manifestações de medo.
filhos? não acredito que isso possa resolver algo.
viemos das chamas antigas, e borbulhamos demais para aceitar os mares calmos.
preste atenção ao poeta no canto da enorme sala,
falando aos quatro céus, embebedando-se com uísque.
é do desespero deste homem que se fazem as grandes festas.


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