domingo, 2 de janeiro de 2011

TROMBONE E CIÚMES >> Eduardo Loureiro Jr.


Ano novo, vida nova. Resolvi aprender a tocar trombone.

— O senhor não prefere botar a boca na gaita? — sugeriu a secretária da Escola de Música. — É mais simples.

— Fico com o trombone mesmo, obrigado.

Já o professor advertiu:
— Não é um instrumento fácil, os alunos costumam dar com a língua nos dentes.
— Grato pelo conselho, professor, mas vou correr o risco.

Não sei se o leitor tem o mesmo defeito neurológico que eu, mas, quando começo a ouvir uma música instrumental, ouço uma voz — inexistente para as demais pessoais — que vai recitando palavras que se encaixam na melodia da música.

Durante minha primeira aula de trombone, por exemplo, os sons que emiti — com muita dificuldade — diziam mais ou menos assim:

Quase todas as mulheres ciumentas erram o alvo de seus ciúmes: seus homens, maridos, namorados estão interessados em uma pessoa e elas pensam que eles estão interessados em outra. Porque homem está sempre interessado em mais de uma mulher ao mesmo tempo, e ainda não me apareceu nenhum para me dizer o contrário de forma convincente. Nem que seja um interesse passageiro, por uma moça também passageira, vestindo uma minissaia minusculamente passageira e com um gingado deslumbrantemente passageiro. Então as mulheres têm razão em sentir ciúmes, mas o próprio ciúme obscurece a mira do olhar e elas erram o alvo. O marido gosta é da moça de óculos, o namorado se excita é com a falsa magra, e as mulheres ficam com ciúmes é da loura de olhos azuis e da miss de ocasião.

O ciúme é um sentimento que desvaloriza a própria mulher diante de seu parceiro, não apenas pela irritação que é ter alguém ciumento ao seu lado, mas porque, principalmente, é insuportável ter alguém burro, completamente tapado, por perto. E o cíúme que erra o alvo é de uma burrice indesculpável. A mulher lá, com os olhos arregalados de rivalidade e com a boca ardida de desconfiança, enquanto o homem fica pensando: "Pobre coitada, nem desconfia que, se eu pudesse, ficava era com sicrana e não com fulana". Mulher ciumenta ainda vai, mas mulher burra de ciúme não dá. Porque mulher só acerta na mega-sena do ciúme se jogar muitos cartões de muitos números, ou seja, se tiver ciúme de muita gente. Aí das vinte de que ela tem ciúmes, está sujeita a acertar umazinha em que o companheiro também esteja interessado. Agora tem homem que acha ainda mais insuportável esse ciúme de múltipla escolha em que a mulher ciumenta marca todas as alternativas. Mulher ciumenta só dá certo se for neuroticamente ciumenta com um homem neuroticamente galinha. Ela tem ciúme de todas e ele se interessa por todas. Casal perfeito, feitos um para o outro.

Mas mesmo essas erram, de certa forma, o alvo. Porque só existe uma mulher de quem uma mulher deveria sentir ciúmes: dela mesma no tempo em que conheceu seu bem-amado. Porque, no fundo, é essa mulher pela qual o homem tem permanente interesse: sua amada no momento em que a conhece. E, no momento em que o homem conheceu sua mulher, ela não tinha ciúmes dele. Por isso que a melhor forma da mulher garantir que não terá motivos para ter ciúme é largar mão do ciúme antecipadamente. Assim ela será mais parecida com a mulher que despertou interesse de seu parceiro. E serão felizes para sempre.

Essas palavras estavam em meus ouvidos enquanto eu botava a boca em meu trombone quando o professor interrompeu minha clariaudiência para dizer que a aula tinha acabado.

— Eu levo jeito, professor?
— Quando você sair da classe, repare bem no rosto de quem está na sala de espera. A expressão deles dirá se você os aborreceu ou agradou. Até a próxima aula.




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4 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Aiai, Eduardo...rs.
Com toda sua divagação, confirmo que não tenho o mínimo dom para a música clássica.
E oxalá que sua inspiração textual e musical se confirme com o trombone, aliás, como estavam as expressões na sala de espera?
Bjs!

vanessa cony disse...

Quanto ao trombone não sei.Só sei que é um homem corajoso!rsrsr
Quanto ao ciúme...Não sei também!Vai entender,né?Belo texto,feliz 2011.

Carla Dias disse...

Ok! Vou esperar para ver que texto brota quando for um solo de trombone.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Meninas, vocês formam uma bela sala de espera. :)