sábado, 7 de maio de 2016

A MORTE >> Sergio Geia




A morte andou a me espiar. Primeiro na padaria. Cheguei, sentei na única mesa vazia, uma mesa de canto, escura, apertada, chamei a mocinha. Estranhei o movimento. Frequento a padaria regularmente e nunca esteve tão cheia. Sempre encontro mesas vazias, tranquilidade, ou mesmo o balcão, que bem me serve. Naquele dia, porém, não. Tudo tomado. A mocinha que sempre me atende veio como a notícia: “É o velório”, ao que prontamente respondi: “Ah, sim, o velório. Que Deus o tenha”. Havia um morto a me atrapalhar o café. A família, que de morta não tem nada, tratou de encher a barriga.

No dia seguinte, de novo na padaria. Em outra, agora, na Praça Felix Guisard. Não estranhe, honrado leitor, não estranhe. Sou assim mesmo: um frequentador de padarias. Em alguns dias, tomo café aqui em casa; porém, na maior parte deles, saio pra caminhar e encerro na padaria. Muitos ralham: “de que adianta caminhar?”; porém, nada sabem. Tudo é questão de comedimento. Sejas comedido e terás o mundo. Não mergulho no rio de guloseimas. Tomo o meu café, simples, como um boi no pasto.

Pois estava quase a levantar para tomar rumo quando sou surpreendido pelo funeral: o passar de um luxuoso automóvel branco com adesivo de funerária, levando consigo mais um morto para a morada eterna. Seleto grupo de automóveis, carregado de familiares e amigos enlutados, formava o comboio que seguia hirto a marcha fúnebre rumo ao cemitério, com a lentidão que exige a cerimônia.

De volta pra casa, fazendo o balanço da jornada, concluí que a morte me espia. Uma conclusão óbvia. Se você for como eu, que lê as sutilezas da existência, vai concordar. Já vi de tudo nessa vida, inclusive morte. Já vi a morte morrida e a morte matada. A sorrateira, a cruel, a torpe, a inesperada, a lenta, a rápida, a natural. Mas não sabia que ela era dada a espionagens. Talvez espie. Talvez sempre espiou. Talvez muitos de nossos mortos estiveram sob seu olhar minucioso e cruel antes de encontrá-la. Não perceberam. Aliás, ninguém percebe. Eram vivos distraídos, abobalhados, agitados, que no outono não percebiam as folhas que escorregavam dos ipês; não perceberiam os sinais da morte. Tornaram-se mortos, e mortos complacentes e satisfeitos.

De outra sorte, digo que eu, atento aos sinais da vida, percebi. E reputo a essa fina percepção o alargamento de meus dias. Os motivos, desconheço; mas desconfio. De repente, contrariada por ter sido descoberta, ela tenha me deixado à margem e procurado outra vítima, digamos, mais distraída; um simples caso de orgulho ferido. Não sei. Talvez até seja arrogância de minha parte tecer tais considerações. Não era candidato e ponto. Foram meras coincidências. Tanto que cá estou, tempos depois do ocorrido, contando ao estimado amigo as intercorrências da morte. Mas afirmo que arrogância não é, de jeito nenhum. Sou temente, medroso, desconfiado e desejoso que ela me esqueça. Pelo menos, que me conceda mais tempo para escrever banalidades. E amar. A vida é cheia de banalidades e amor. As crônicas também. E esse honrado homem do Senhor e humilde cronista ainda guarda apetite para muita produção. E derivativos.

Mas confesso (que a morte não nos ouça) que no terceiro dia, após a minha caminhada matinal, preferi o café aqui mesmo, em casa. Cautela e caldo de galinha não prejudicam ninguém, embora cônscio de que não seriam os muros do Santorini que me protegeriam de suas garras. Mas cá estou (por enquanto). E é isso o que importa.

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7 comentários:

Zoraya disse...

Que excelente crônica,Sergio! Decididamente, vc está virando o Rei da crônica mínima, das sutilezas. Boa demais! Bjs

Wilson disse...

Caro Sérgio.
Vou recomeçar, ficou muito formal.
Hey Serginho!
Sabia que suas crônicas são viciantes?
Aguardo ansiosamente por cada uma delas, e como aguardo! Como um poeta beat aguardava a sua dose diária para ter a inspiração. No meu caso, aproveitar a sua sensibilidade para me fazer acreditar ainda mais na minha "não rotina" pessoal, mas acreditar que observando as coisas mais rotineiras se soubermos e tivermos o dito dom, conseguiremos tirar deste aparente nada um tudo que nos absorve e nos embeleza.
Tenha certeza de uma coisa (e sem bajulação), os poetas, cronistas, contistas do simples são os melhores, pelo motivo que, sob meu ponto de vista, percebem melhor, conseguem ver o que todo mundo olha mão não enxerga. Escrever sobre grandes feitos é para os pequenos, continue "pequeno", nisto reside a grandeza de todo o seu escrito.
Finalizo pra não ficar chato, aceite um abraço amigo (e plagiando o comentário anterior) cronista das sutilezas.
Respeito e admiração!

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Amigo Sérgio, a padaria é muito cara aos cronistas.

sergio geia disse...

Zoraya, é o que me dá prazer. Caro Wilson, emocionado com as palavras. Adoro padaria, André. Grato, amigos!

Fabio Augusto Tomaz dos Santos disse...

Não sou homem de palavras, porém, agradeço-lhe por sempre tornar o dia de nós seres vivos distraídos, abobalhados, agitados, que no outono não percebíamos as folhas que escorregavam dos ipês e que não percebíamos os os sinais da morte cada vez mais motivador e inspirador.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Banalidades das boas, Sergio. :)

sergio geia disse...

Caro Fábio, eu que lhe agradeço. Obrigado pela leitura e pelo comentário. Volte sempre. E comente! Grato, Eduardo.