segunda-feira, 9 de maio de 2016

A SALVADORA DANÇA ACROBÁTICA >> André Ferrer

Joaquim catava material reciclável nas ruas. Há dois meses, ainda era o Mickey. Depois, as coisas mudaram, conforme ele tentava explicar para o senhorio, que também administrava a Lancheria Satisfaction.

"Garçom. Posso trabalhar aqui em troca do aluguel."

Do outro lado da rua, doze jovens aguardavam numa fila. Vinte e quatro pés equilibrados numa tira de sombra. Às três da tarde, o sol não perdoava.

O dono da Satisfaction coçou o queixo.

"Queira me desculpar", disse o homem. "Dois meses de atraso. Eu sinto muito, Quim."

O ex-Mickey assentiu.

"Tudo bem. Assim que arrumar o dinheiro, pago."

"É como eu disse: você pode pagar quando puder. Apenas, agora, preciso do lugar desocupado."

Joaquim sinalizou com o polegar e caminhou até a porta. Rubens, o ex-patrão, naquele exato momento, dava as caras do outro lado da rua. Como um pastor, apascentou metade dos candidatos até a entrada do seu escritório. Os outros ainda lá fora. Imediatamente, ouviu-se música alta. Os candidatos a Homem-Aranha e Capitão América testaram a coreografia. Todos equilibrados na estreita sombra desenhada no chão.

O velho Quim deu de ombros. Voltou-se para o interior da lanchonete onde o proprietário trabalhava atrás do balcão. Por um segundo, Joaquim teve a impressão de que ele observava, compadecido, aquele momento definitivo do seu drama.

Nas duas peças, que ficavam em cima da Satisfaction, ele tratou de arrumar os poucos pertences. Abriu o armário. Dobrou as três trocas limpas. De cima do móvel, tirou a mala empoeirada. Na face interna da porta do armário, Mickey Mouse — ou, pelo menos, o seu corpo murcho e, como sempre, incapaz de realizar a salvadora dança acrobática — pendia, morto, decapitado. A cabeça estava embaixo da pia, no outro cômodo, mistura de sala e cozinha.

Quando terminou de arrumar a mala, enfiou Mickey Mouse num saco de lixo. A cabeçorra dificultou a amarração. Depois, Joaquim desceu a escada, jogou o saco num tambor e, surpreso, descobriu que, do outro lado da rua, a calçada estava deserta e a música havia parado. Com toda a certeza, a equipe de Rubens já se renovara.

"Boa sorte", fez o dono da Lancheria Satisfaction no momento em que pegava as chaves.

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3 comentários:

Zoraya disse...

que linda, André, que triste! A novidade a cobrar seu preço na dança acrobática que um velho nao podia fazer. O detalhe dos diálogos curtos e inclementes como o sol me lembrou muito o estilo seco e duro do seu preferido Hemingway.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tocante, André.

Anônimo disse...

Simplificando, a velhice é uma "mercadoria", ainda mais, em uma sociedade que suga a juventude de todos, e depois joga a maioria fora como um bagaço de laranja chupada!
A vingança dos velhos é que os novos vão envelhecer um dia!