sexta-feira, 13 de maio de 2016

CIFRANAVA: UMA GRANDE AVENTURA
>> Paulo Meireles Barguil


Entre frutas e bichos, o Homem, há milênios, aprendeu a representar o que tinha.

Em cada sociedade, distintos símbolos e modos para fazê-los e agrupá-los.
Alguns desses são ainda conhecidos.

No Ocidente, prevalece, após vencer o Sistema Romano numa secular batalha — epistemológica e com fortes pigmentos religiosos —  aquele que foi criado pelos Hindus e difundido pelos Árabes, motivo pelo qual é nomeado como Sistema Indo-Arábico.

Sua aprendizagem é motivo de sofrimento para muitos e de júbilo para poucos.

Os mestres, infelizmente, na maioria das vezes, em virtude dos seus fragmentados e, por vezes, confusos conhecimentos, não auxiliam os estudantes na aprendizagem desse fantástico produto cultural, cuja autoria é coletiva.

Algarismo, numeral e número: afinal, o que é cada um?

Ah!, você nem imagina o embaraço cognitivo e o pedagógico do professor diante desses conceitos.

E o que balbuciar, então, sobre a mistura que acontece nas crianças?

Essas, entre cópias e recitações, vão entendendo cada vez menos e odiando cada vez mais a Matemática.

É essencial que eu lhe diga: isso não é Matemática!

Ela é muito mais do que essas duradoras aberrações, as quais expressam tanto a incompreensão de como se aprende como do que é essa bela Ciência, a qual, na escola, é dividida, conforme a novíssima Base Nacional Comum Curricular, em vários eixos: Álgebra, Aritmética (Números e Operações), Estatística e Probabilidade, Geometria, e Grandezas e Medidas.

A Matemática e a Língua Materna ocupam posição de destaque no início da vida escolar, com primazia para essa última.

Grandes são os desafios para que os discentes possam, na escola, ampliar seus conhecimentos constituídos fora dela.

Na Língua Materna, os estudos de Emilia Ferreiro, iniciados em 1980 e ampliados por ela e outros pesquisadores, contribuem para que os processos de leitura e a escrita sejam melhor compreendidos pelos docentes e, assim, ensinados.

Enquanto na Língua Materna, há uma conexão linguística entre alfabeto, sistema alfabético e alfabetização, o que contribui para uma melhor prática profissional, na Matemática, no âmbito da Aritmética, inexiste tal nexo, entre o conjunto, o sistema e o processo.

Para começar, o conjunto nem batizado é, o que contribui para que muitas pessoas não compreendam a diferença entre algarismo, número e numeral.

O Sistema é alcunhado de Numeração Decimal, mas, na verdade, a grande maioria dos sistemas que a Humanidade criou era de base 10, ou seja, a cada 10 elementos agrupados, outro elemento o representa.

A grande peculiaridade desse Sistema é o fato de ser posicional — todo algarismo tem valor absoluto e valor relativo, pois, enquanto o primeiro é fixo, o segundo depende da ordem em que ele está e da ordem a que se referencia — mas essa característica nem é ressaltada na denominação!

Quanto ao processo, são diversas as alcunhas: numeralização, numeramento, senso numérico, sentido de número...

Considerando que uma das funções da linguagem é organizar a compreensão do sujeito sobre o mundo, não é laborioso imaginar o que essa desarticulação linguística proporciona, tanto aos professores como aos estudantes.

E foi pensando nisso, que uma criança, com inspiração divina, propôs uma solução.

Tendo em vista  que a palavra alfabeto é uma referência às duas primeiras letras (alfa e beta) do conjunto das letras gregas, que originaram as latinas, ela resolveu nomear o conjunto dos algarismos indo-arábicos em deferência a esses povos.

Adotando como parâmetros o zero e nove, extremos desse conjunto com dez itens (0, 1, 2... 8, 9), e após um mergulho etimológico, associou o zero à sifr, árabe, que originou cifra e zero, e o nove a nava, sânscrito, uma língua da Índia, resultando dessa adição, pois, o vocábulo cifranava.

Depois disso, ficou fácil: diante daquela imprecisão — Sistema de Numeração Decimal — sugeriu a expressão Sistema Cifranávico, num paralelismo ao Sistema Alfabético, pois os numerais, os registros numéricos utilizam algarismos do Cifravana.

E, por fim, chamou de Cifranavização o processo no qual as pessoas aprendem a utilizar o Sistema Cifranávico, incluindo naquele as operações fundamentais.

Estupefata com seu folguedo, tentou partilhá-lo nos espaços apropriados, mas sua sugestão não foi valorizada pelos sábios, afinal ela era coisa de infante e eles estavam preocupados com coisas mais importantes!

Outros adultos, contudo, o incentivaram a prosseguir, mesmo que, muitas vezes, sem entender bem do que ela falava.

Resoluta, decidiu ir adiante e continuou a bulir e a aperfeiçoar a sua criação, bem como a si mesma.

Depois de muitos meses do seu lampejo inicial, ela a propagou.

Quer conhecer um pouco mais essa peripécia? Clique aqui.


[Pintura rupestre na Serra das Paridas, município de Lençóis - Bahia]
[Foto de minha autoria. Outubro/2015]
[Crônica dedicada ao meu irmão José, que não conheci, morto com um dia de vida, que, se vivo fosse, faria hoje 49 anos]

Partilhar

Um comentário:

Anônimo disse...

Continue buLindo! =)