terça-feira, 17 de maio de 2016

SOBRE TRABALHAR COM CRIANÇAS >> Clara Braga

Sempre ouvi aquele clichê de que se aprende muito com crianças. Que demora muito até que a gente tenha maturidade suficiente para se deixar ser um pouco criança. Bom, por mais bonito que eu achasse esse discurso, esse é um daqueles clichês que é difícil entender quando você não passa pela experiência.

Só depois que eu comecei a conviver com crianças diariamente no meu trabalho foi que eu entendi que sim, todos deveríamos deixar nosso lado criança aparecer mais.

Com meus alunos, eu aprendi as lições mais básicas da vida, mas que a gente insiste em deixar de lado. Por exemplo, se alguém te pede desculpas e você aceita, é porque você de fato desculpou a pessoa. Parece óbvio, mas nem todo adulto consegue agir assim. Temos a mania horrível de ficar ruminando aquilo que a pessoa fez até nem lembrarmos direito o que nos deixou chateados. Crianças pedem desculpas e vão brincar. Por que elas brigaram? Não importa, é passado.

Segunda lição: eu tenho direito de estar triste. Todo mundo tem problemas e dias ruins, pra que fingir ser o Super-homem? Crianças quando estão tristes choram e pronto, depois ficam bem. A gente que observa acha que é quase um milagre, como podem ser tão resilientes? Posso estar errada, mas o segredo está em um fato específico: elas choram meeeesmo! Nós fingimos ser mais fortes do que conseguimos ser, temos vergonha de compartilhar nossos sentimentos, guardamos tudo até explodir e pra quê? A máxima "aceita que dói menos" nunca fez tanto sentido pra mim e, se disserem que ela foi dita pela primeira vez por uma criança de 7 anos, eu não duvido de jeito nenhum.

Terceira lição, e talvez a mais importante: crítica construtiva não é mito. Existem formas delicadas de dizer que algo não está legal. Esses dias uns alunos disseram: "Professora, a aula assim está um pouco cansativa, não podemos transformar essa matérias em um jogo de forca? Vai ficar mais divertido!" E foi jogando forca que aprendemos quais são as cores primárias e secundárias. Teve também o dia que o aluno disse: "Professora, seu cabelo está um pouco bagunçado, amarra direito, você vai ficar mais bonita."

Ah, e é sempre muito importante lembrar que, onde há espaço para críticas, há espaço para elogios. Se apegar ao lado negativo é definitivamente uma característica dos adultos. Do mesmo jeito que dizem que não gostaram, as crianças não medem palavras para dizer que foi legal, ou te elogiar, como no dia em que coloquei uma blusa nova para ir trabalhar e meu aluno perguntou se eu tinha um encontro, pois estava muito bonita! Mal sabe ele que o único encontro do dia era com eles!

Enfim, no final das contas, acho que a lição que fica é, me perdoem os clichês, mas a espontaneidade é um bom caminho para a felicidade.

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2 comentários:

Conceicao Belo disse...

Parabéns! Muito boa a crônica.
Beijos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Clara, que bom que você trouxe para o encontro com a gente a boniteza do seu encontro diário com as crianças. :)