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DISTRAÇÕES | 3 DE 3 | ELES >> Carla Dias >>



DISTRAÇÕES | 1 DE 3 | ELE 

DISTRAÇÕES | 2 DE 3 | ELA


ELE | Sentado na cama de quarto de hotel, olhando para o chão, a respiração revelando o ritmo de quem se perdeu no caminho. A mãe tem dito, sempre que o filho dá sinais de cansaço, que acontece sim de as escolhas nos escolherem. Que pensar que somos donos de todas as escolhas que fazemos é renegar as influências que sofremos a cada dia. Elas nem sempre cabem no nosso desejo por sim. Acontece de sermos contra ao que nos acontece, apesar de serem resultado das nossas escolhas.

Ele não escolheu ser esse homem sentado em cama de quarto de hotel, sofrendo de taquicardia, porque tem crises de pânico a cada palestra. Aliás, como chegou até aqui? Seu pai, se fosse vivo, diria que ele pegou a sua capacidade de ser falastrão na sala de estar de casa e levou para os palcos do mundo. O que ele não sabia, era do quão difícil seria olhar nos olhos de tantos e ao mesmo tempo. E ter de escutar suas histórias, algumas impossíveis de se imaginar como personagem. E de quando engoliria o choro, porque seria péssimo desmoronar, enquanto uma pessoa conta a ele como sobreviveu a todos os sentidos da miséria.

Sente-se traidor de algo bom, esse algo bom que não acontece na vida de uma pessoa só porque ela desejou e trabalhou para isso. O universo, assim como os políticos, os líderes de todas as vertentes, o povo e os artistas teriam de estar alinhados para abençoarem e colaborarem em seu benefício.

É raro o que ele tem. Ainda assim, só consegue pensar que fez o que tinha de ser feito, nada mais. Alimentou quem tinha fome, fosse de comida, fosse de atenção, fosse de companhia. Não é isso que um ser humano deve fazer? Seus pais disseram que sim e ele acreditou nisso.

Agora, é essa pessoa que nem sempre se reconhece no espelho, que passa noites longas em quartos de hotel de tantas estrelas que ele não se importa em contar, que fala para milhares, milhões quando ao vivo na televisão, e, de acordo com muitas delas, inspira mudanças essenciais em suas vidas.

Ele se sente bem em saber que há quem se beneficie de forma positiva de quem ele é. Porém, não acredita que caiba aí todos os adjetivos que usam para descrevê-lo. Como diz seu assistente: 90% de aceitação e 10% de rejeição é muito, mas muito bom.

Não para ele.

Apesar de apreciar as conversas que têm com pessoas interessantes, e de como se sente vivo ao falar sobre o que acredita, acha que faz mais mal do que bem a todos que enchem auditórios, assistem seus programas ou leem seus livros paridos ao modo ghost writer. Porque, depois dessa iluminação que eles alegam ter por meio da vida e obra dele, eles param. Torna-se tão confortável sentir esse contentamento, que feito uma droga, as pessoas se permitem distrair pelo raso de tudo o que ele acredita. Elas se distraem e se distanciam do que de fato importa.

Ele nunca apreciou distrações.

ELA | Há mais de hora que está assim, observando paisagem. Sentada em um banco de praça, olhar zanzando pelo restaurante, onde algumas pessoas que conheceu, com quem trabalhou, que alegaram com veemência que ela era a mulher mais interessante que já conheceram, que confiavam nela, que a respeitavam, fiam-se em invencionices para colocá-la no lugar.

Lá está o mestre de cerimônias de tal espetáculo de demonstração de poder e desrespeito. De desafeto, ela ousa considerar. O pai continua a tentar qualificá-la como incapaz de gerir seu próprio dinheiro. Ele se sentiu tão ofendido com a atitude dela, que vem alimentando esse desejo de dar o troco, de tirar dela a capacidade de ser quem se tornou. Enquanto enche a barriga daqueles advogados brilhantes, que ganham uma fortuna para fazer seus planos funcionarem.

Sente uma tristeza imensa por ele preferir se privar de um amor tão sincero quanto o dela a aceitar que ela descobriu que passou muito tempo distraída com a vida, em vez de vivê-la. E por ser amor, ser sincero, ser desde sempre, ela não se curva ao mau uso do sentimento.

Sendo assim, hoje ela ama seu pai do banco da praça. Quem sabe, dia desses, volta a ser amor cabendo em um abraço.

Acontece que ela é não é desiquilibrada como seu pai atesta, e isso o tem deixado bem desiquilibrado. Pode estar na fase de cometer inconsequências mais voluptuosas, de elucidar excentricidades, de amainar a agudez de sua afiada ambição. Ainda assim, nunca se sentiu mais sã, presente e útil do que agora.

Sã porque sua mente está livre de estratégias. Elas são úteis e necessárias, mas não devem dominar a vida de uma pessoa. É preciso criar espaço para a espontaneidade, para o risco não calculado, para o atirar-se. Presente porque há até mesmo partes de seu corpo que ela não se lembrava de sentir. Ainda pela manhã, passou algum tempo tocando o próprio rosto, mas não daquele jeito de quem tem de se maquiar com perfeição em cinco segundos e estar em uma reunião de negócios, que definirá o destino de muitos, em dez. Foi livre de urgência, com a languidez de quem se reconhece, e se questiona sobre a falta daquela linha delineada pelo sorriso. Útil porque se desapegou da grandiosidade à qual dedicava sua vida. Tudo era superlativo em sua existência, inclusive as diárias de hotel e chá preto.

Chá preto!

Hoje ela consegue pensar sobre o que a levou a desfrutar disso, sem se debruçar em resposta pronta: porque você pode. Descobriu, assim, em um engasgo, distraída da verdade absoluta que protagonizava, que tinha um tudo que não a agradava. Que tudo não é sinônimo de contentamento. Que sem o mínimo de contentamento, a pessoa desfalece internamente, coloca mágoa, dor, desalento, e mais uma série de palavras bonitas, que nasceram para dizer sentimentos feios, no vocabulário de sua rotina. Desaprende a alegria.

Distrair-se é fácil. Ela pensou que gostasse da distração, daquela fuga que praticava durante as longas e complexas reuniões, e que nunca a prejudicaram, porque ela conhecia o jogo muito bem. Crescera a jogá-lo. Pequenas distrações, como pausas que o departamento pessoal jamais ofereceria, porque a empresa tinha de atingir metas, vencer obstáculos.

Só que distração desse naipe não é somente fuga, mas também encarceramento. Deixa-se ali, no meio do palco da vida, o cadáver do desejo que em nada tem a ver com conquistas catárticas, das que chegam às lufadas de vento e tempestades e mudam tudo. Trata-se dos pequenos e transgressores desejos, daqueles que rezam outra reza, que cavoucam segredos infligidos, que começam hoje a pincelar o daqui a pouco.

Levanta-se e caminha para longe do restaurante. Seu pai continuará a tentar interná-la em uma clínica, porque nunca soube dar bronca. Talvez, se ele tivesse passado mais tempo a compreender quem colocou no mundo, estivessem almoçando juntos ali.

Não quer mais se apegar ao que o outro poderia fazer de si por conta de quem ela é. Passou a exercer o direito de fazer nada na conta de quem o outro é. Viver não é fácil, mas nem por isso, menos valioso, casto de prazer e aprendizado. Há o que descobrir, coisas e pessoas das quais ela se distraiu, e por muito tempo. Há ideias tão diferentes e ousadas em sua cabeça. Há vazios em seu espírito, que ainda não sabe se poderá preencher.

Há distrações que ela descobriu, depois de muita contemplação, que não são distrações, mas deslumbramento, daquele que amplifica a capacidade de viver da vida o que for. Hotel tantas estrelas ou estação de metrô.

Ele e Ela nunca se encontrarão. Um mora aqui, o outro tão para lá, que é um tanto improvável. Não é apenas a geografia que os separa, que isso uma companhia aérea resolveria fácil. Os médiuns dizem que eles nasceram onde nasceram para lá permanecerem, que são lugares que precisam de pessoas que compreendam a importância de acordar de certas distrações. E eles são peritos nisso. Não importa o quão difícil seja.
Os escritores preveem um futuro digno de romance adaptado para o cinema, tamanha a comoção que causará o encontro dessas pessoas. Estão certos de que os diálogos sobre as experiências que passaram serão dos mais significativos.

As bruxas, ah, as bruxas são sempre tão atrevidas. Para elas, se não for nessa vida, será na outra. É inevitável, ainda que todos os encantamentos não sejam capazes de colocar esses dois no mesmo lugar hoje. O futuro bendirá esse feito.

Mas posso garantir: Ele e Ela não se encontrarão. Só resta saber de quem é a culpa por essa distração.

Imagem: Imagem: Dispar © Francis Picabia

carladias.com

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