quarta-feira, 18 de maio de 2016

MAIS SIMPLES >> Carla Dias >>


A vida anda mais complicada do que nunca. Quer dizer, nós andamos mais complicados do que nunca. Mesmo quando optamos pela simplicidade, baseados na lógica, no que se mostra, cometemos lá nossas complicações.

Complicar faz parte de nós.

Até buscar pela simplicidade complica tudo. Se tivermos de repensar quem somos e as escolhas que fizemos. Se tivermos de aceitar que a ideia que tínhamos sobre determinado aspecto da vida não está bem embasada e pede por reflexão e mudanças. Se tivermos de lidar com os erros que cometemos, na maior clareza, então que o processo que deveria simplificar tudo se tornará bem complicado.

O que aconteceria se aceitássemos que complicamos, mesmo quando a questão é simples?

Eu sou das que complicam o simples. Sofro por antecipação, quero eu mesma resolver o que não dá para resolver sozinha, principalmente porque não quero dar trabalho ao outro. Sou ansiosa a respeito do que acredito ser óbvio para qualquer ser humano quando se trata de direitos e deveres. Não tenho medo do trabalho que dá ser complicada.

Simplificar é que dá trabalho.

Tenho tentado levar a vida com mais simplicidade. Comecei aceitando que meu espírito merece certo aprazimento. Então, vou a todos os shows e espetáculos teatrais possíveis, retomei a leitura dos livros que fui empilhando, nos últimos anos, e voltei a cozinhar, sendo que, neste aspecto não somente o espírito agradece, mas o corpo também.

Decidi aceitar minha idade. Não que não a aceitasse, com aquele peso da aceitação, todas aquelas direções que o sentido da palavra pode tomar. Não a aceitava porque acreditava que, com mais de quatro décadas de existência, eu não havia feito o necessário com a minha vida. Mas acontece que, olhando de perto, eu vivi bem esse tempo, fiz com a vida o que deveria ter feito, e ainda tive a boa sorte de conquistar amigos extraordinários pelo caminho.

Tornar a minha vida mais simples tem sido um processo complicado. Ainda assim, decidi que é o único caminho pelo qual posso seguir nesse momento. Venho tentando deixar as complicações para as histórias que invento e coloco nos meus livros, e até nesse aspecto o resultado tem sido positivo.

Isso não significa que a pessoa que sou deixará de ser complexa do jeito que sempre foi, ou que abandonarei as minhas peculiaridades. Tornar a vida mais simples tem a ver com criar espaço para o que faz mais bem do que mal, sem que isso faça mais mal do que bem a qualquer outra pessoa.

Dar um passo para trás, a cada vez que sou desafiada a lutar pelo óbvio, pelo o que é meu por direito. Assim posso avançar sem me tornar incoerente a respeito do valor de quem tenho de enfrentar nesse processo. Ser mais justa comigo e com os outros, em todos os aspectos.

A partir do momento em que compreendemos que levarmos uma vida mais simples traz complicações como prefácio, passamos por isso com um pouco mais de gentileza e graça. Também descobrimos os excessos que cometíamos, tanto em relação ao afeto quanto ao desafeto. É primordial priorizarmos a companhia daqueles com os quais podemos conversar, discordar e, ainda assim, não colocar o afeto em risco. Essa sintonia que mantemos com as pessoas que nos acompanharão pela vida afora.

Nesse processo, venho tentando meditar. Como da primeira vez que tentei, não está dando muito certo. Depois de tornar a vida mais simples, quem sabe minha cabeça se aquiete também, e eu possa, finalmente, meditar em um tom mais budista.

Imagem © Inês Mesquita

carladias.com

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3 comentários:

Enio disse...

Grande Carla Dias,

Você descomplica a escrita e sabe como só você sabe fazer a gente pensar o quanto sabemos complicar o que parece fácil (só parece, porque ninguém disse que era fácil)

Gosto muito de ler os seus textos.

Enio.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Simples e bonita essa sua crônica, Carla. :)

Carla Dias disse...

Enio, meu caro, obrigada por mais essa leitura. Gosto muito quando você aparece por aqui. Grande abraço!

Eduardo, obrigada! Beijos.