sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

PARA COMEÇAR BEM O ANO >> Zoraya Cesar

O ano anterior não fora nada bom. Ele deixou que os cupins comessem o baú onde estavam guardadas as cinzas da sogra; esquecera de comprar a parte que lhe cabia para ser servida no aniversário de 70 anos do pai (os convidados tiveram de encomendar comida chinesa no delivery mais próximo), e houve coisa até pior, mas a lista é tão extensa que levaria uma crônica inteira só para esmiuçá-la. Nosso amigo era mais que um prosaico pé-frio, era um verdadeiro pé-congelado.

Deve ser carrego, concluiu, energia ruim. E resolveu ir num Centro Espírita Umbandista. Não custava tentar, até porque pior não poderia ficar.

Ficou horas intermináveis na fila, esperando a vez de ser atendido pelo Caboclo Fumaça Cinza, nome que lhe pareceu de índio norte-americano e não de entidade de umbanda. Deve ser a globalização, pensou. 

Finalmente, quando chegou sua vez, viu-se frente a frente com uma velha senhora, tão gorda, que ele, sempre debochado, pensou que o Centro era mesmo muito poderoso, para fazer com que aquela mulher se equilibrasse numa banqueta que parecia ter espaço apenas para a ponta de seu cóccix.

Talvez a entidade tivesse lido os pensamentos de nosso amigo, pois disse-lhe, num tom de voz deveras ameaçador: 

- Fio não tem condições de rir não. Vida difícil, aura carregada.

Ele se sentou, avexado, e o Caboclo, incorporado na mulher, ficou a assuntá-lo, murmurando hum, hum... por um longo tempo. Essa impassibilidade começou a deixá-lo nervoso, será que a coisa estava tão ruim assim? E, além disso, sua perna ficou dormente, ele precisava mudá-la de posição.

Ao esticá-la, porém, chutou pra longe o prato que estava entre eles, espalhando todas as quizumbas, charutos, folhas, búzios e um copo cheio de café. A pobre mulher lutou bravamente para não perder a conexão com a Entidade enquanto uma assistente limpava a sujeira e os outros consulentes e médiuns olhavam recriminadoramente para nosso atrapalhado amigo.

Reiniciaram a consulta. A Entidade começou a sussurrar umas rezas para ele que, afoito por ouvir melhor, agachou-se desajeitadamente mais para perto, perdendo o equilíbrio e derrubando uma vela acesa que estava no chão, bem em cima do pé descalço da velha senhora, que uivou de dor.

A assistente correu para acudir a coitada, que, agastada pelas sucessivas interrupções e pela aflição, perdeu a conexão com a Entidade, e teve ser levada para uma tenda do lado de fora da casa, para reiniciar o trabalho de incorporação e ter a queimadura tratada.

Ele sentiu que começara mal. Ficou sentado, sem se mexer, com medo de quebrar ou queimar mais alguma coisa. Em volta, as consultas recomeçaram, e o burburinho de vozes baixas, das cantigas e preces voltou a embalar o ambiente, fazendo-o entrar numa espécie de torpor. Fechou os olhos, relaxado. Mas a perna voltou a incomodar, assim como as costas, e ele, ainda de olhos fechados, espreguiçou-se, esticando as pernas

Ploft. Ou cataplum. Ou outra onomatopeia qualquer à sua escolha que represente uma queda. Uma boa queda.

Pois naquele exato momento chegava a médium, novamente incorporada pelo Caboclo, carregando um alguidar cheio de instrumentos e ingredientes para um bom descarrego, que aquele filho tava mesmo muito precisado. Ela tropeçou e, por ser uma senhora de idade avançada e, como já dissemos, muito gorda, a queda foi inevitável, escandalosa e barulhenta, pois ela e tudo o que carregava foram-se ao chão, quebrando-se em mil pedaços o que tinha para quebrar e espalhando-se por todo o salão o que tinha para espalhar.

Foram precisos quatro homens para levantá-la e levá-la de volta para a tenda, porque, como era de se esperar, a conexão foi perdida novamente.

Nosso amigo teve vontade de se enfiar num buraco. Eu devo estar com essa tal de aura muito negra mesmo, será possível que nem num Centro Espírita as coisas dão certo pra mim? Ele sentia que até a imagem de Santo Expedito, o patrono da casa, olhava-o meio desconfiado.

Muito tempo depois, a velha senhora (uma alma perseverante, nota-se) volta, novamente incorporada, e a sessão recomeça. O Caboclo sopra a fumaça do incenso e começa a bater levemente no nosso amigo com folhas de espada de São Jorge, dando início à limpeza áurica, mas a fumaça faz com que ele espirre violentamente, curvando-se para frente e furando o olho na ponta dura da planta, que, naquele instante, passava por seu rosto. Nada grave, mas doeu, e ele começa a gritar, de susto e dor. O Caboclo, já cansado de tanta interrupção, desincorporou de vez, naquele dia não voltaria mais, e a velha senhora começa a passar mal, era muita emoção para um dia só. Os demais consulentes, irritados com a demora no atendimento por causa da confusão, exigiam que ele fosse retirado do recinto. Os outros médiuns tiveram de reforçar a concentração para que eles também não perdessem a conexão e já tinha gente pensando em nunca mais voltar àquele Centro tão bagunçado.

O chefe da Casa levou nosso amigo até a porta de saída, deu-lhe um galho de arruda, um patuá e pediu-lhe educadamente que só voltasse dali a três meses, numa sexta-feira, dia em que o trabalho de desobsessão era mais poderoso, e, mesmo assim, somente após se consultar com um Padre exorcista. Pediu-lhe também que tivesse a gentileza de telefonar e avisar quando fosse, para que eles pudessem estar devidamente preparados.


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11 comentários:

Ana Luzia disse...

Ô, menina Zô!

Como dizia o samba da Mocidade (da época em que eu era mocinha, rs, abafa!):

Esconjuro, pé de pato, Mangalô três vezes, Sai pra lá com esse gato, Sexta-feira treze...

adorei! um bom banho de sal grosoo pra vc, rsrs...

bj,

Ana Luzia

Anônimo disse...

Ô cara "mardito"!!!Adorei o final, acho que os médiuns vão marcar a data da consulta dele para o dia de São Nunca...rs..muito bom! Beijos Aglae

Cecilia Radetic disse...

Acho tb q ele deveria fazer algum trabalho corporal, p ter nocao de seu tamanho... se ele ligar duvido q o centro abra, hahahaha

Anônimo disse...

se eu fosse o chefe desse centro colocava uma foto desse cara do lado de fora, para que os seguranças nunca mais o deixassem entrar. Da próxima vez o centro pega fogo!

aretuza disse...

me dá o tel desse cara q eu vou pedir para ele fazer uma visitinha para um inimigo meu....

Erica disse...

Fala sério.. só exorcizando mesmo... Esse cara estudou na mesma escola que vc, Zô? Só acho que ele fez pós-graduação e vc ficou no ensino fundamental rs

Zoraya disse...

Prezadas,qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Eu estudei na mesma escola q o Mr. Bean, nao na desse cara. Até pq minha aura é limpinha...

Anônimo disse...

Para começar você precisa exorcizar os defuntos (ou o que sobrou deles) de suas crônicas, hahaha...
Quanto ao sujeito é melhor da próxima vez procurar a Universal ou a Mundial, que são "especializadas" em exorcismo, mas para resolver mesmo vai ter que levar um "caminhão de dinheiro", hahaha...

Sonia Felisd. disse...

KKKKKKKKKKKKKKK
Boas risadas!
Essa pode continuar.
Será que ele volta daqui a três meses?
Pq será que rir da desgraça do outro...
Deixa pra lá!
Bjs

albir disse...

Zoraya,
minha solidariedade ao atrapalhado cliente. Também sou capaz de desconcentrar um monge.

Anônimo disse...

Era o Inspetor Clouseau!!! hahaha