domingo, 26 de janeiro de 2014

A FARSA >> Whisner Fraga

Como em toda república, devíamos respeitar as regras aprovadas em assembleia: jamais se envolver com a diarista, não comer o último bife da panela, obedecer os mais antigos de casa, divulgar as festas do dia, não filar as guloseimas do próximo e não apelar com as brincadeiras sacanas dos colegas. É claro que honrávamos uma ou outra, de acordo com o humor do dia, e isso não causava grandes atritos. A norma mais complicada de acatar era a que dizia respeito aos doces alheios.

Íamos para casa: Ituiutaba, Caçapava, Ribeirão Preto, com certa frequência e, como todos sabem, as mães são muito parecidas umas com as outras, mudando apenas, como dizem, de endereço. Também é sabido que elas não gostam de ver seus filhos passarem fome. Assim, nada mais natural que voltássemos de casa com as malas cheias de petiscos.

A questão que surgia nos dias seguintes era angustiante: dividir a lambiscaria com os amigos ou esconder tudo e aproveitar sozinho? Vejam bem: é mais do que uma questão moral, é uma questão de sobrevivência. Como repartir um pote de doce de leite com sete marmanjos? Difícil. Fato é que certa vez o Baiano voltou de Feira de Santana com um punhado de doce de dar inveja a qualquer um.

Cada um tinha seu esconderijo, que ficava, invariavelmente, dentro do guarda-roupa. Como nossa criatividade de futuros engenheiros estava em ebulição, não pensem que isso tornava o segredo algo fácil de ser descoberto. Quando o Baiano chegou com aquele saco de iguarias, ficamos loucos. Até matamos aula para procurar onde é que ele as abrigava. Eu, pelo menos, posso afirmar que não achei o local e, consequentemente, não comi nenhum daqueles doces.

Um dia, Baiano marca uma reunião geral e não divulga a pauta. Começa explicando que o volume da sua sacola diminuíra drasticamente e ele não tinha estômago para comer tanto assim, de modo que a conclusão era óbvia: alguém estava roubando sua comida, o que era uma clara afronta aos princípios norteadores da boa convivência naquela república. Até aí tudo bem, todos éramos caras-de-pau o suficiente para ficarmos quietos e calados.

Só que Baiano não era trouxa, tinha dez anos ou mais de experiência em inúmeras moradias estudantis e não ia deixar a coisa passar barata. Em determinado momento, nos pega de surpresa ao afirmar que sabia quem tinha subtraído seus petiscos. E apontou o dedo para o Gordinho: foi você, seu filho da mãe. Assustado, acuado, Gordinho tenta se explicar: mas eu nem gosto de cocada, como é que pode ter sido eu? Baiano começou a gargalhar: estava contente por ter descoberto o ladrão. Como ninguém entendia o motivo do riso, ele explicou: como é que você sabia que era doce de coco, seu malandro, se nunca disse a vocês o sabor, se não tinha nenhum rótulo no vidro e se eu não tinha dado nem uma colher para ninguém daqui?

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2 comentários:

albir disse...

Parabéns, Whisner, por mais esse fragmento de memória, sempre tão interessante.

cronica tijucana disse...

boa, Whisner!

sempre com bons textos e de quebra divulgando o nome da nossa Ituiutaba.

abraços,
enio.