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INDEED >> Carla Dias >>


Já passou da idade dessas coisas, dessas escolhas, é o que lhe dizem até que seu coração quase acredita. Envelheceu naquela rapidez inimaginável, como se ontem fosse o palco dos acontecimentos de vinte anos atrás. Como se tivesse dormido esse tempo todo. Por isso lhe assusta saber sobre as palavras aposentadas, mas que ainda lhe causam frescor ao serem pronunciadas e ouvidas.

Em breve, eu deixarei de existir
Não arrastarei os pés descalços
No chão de piso frio
Não colocarei em ordem
Gavetas
Livros
Desejos
Discos
Segredos
Coisas

De acordo com os que o cercam, seu espaço no mundo é de uma pequenez que lhe sufoca. Respira fundo, observando aqueles sorrisos descolados, de quem sabe de um tudo, enquanto ele, sabedor de um tudo ainda maior, passa receita de obsoleto ao sorrir a experiência pela qual eles ainda não passaram, portanto não reconhecem como válida.

Não circularei – caneta azul ponta fina
A data
A próxima
Que determinará
A nova espera

De acordo o tempo do homem e seu calendário, ele já está oficialmente fora de circulação, aninhado pela desculpa de já ter oferecido à vida o que era possível, “agora é hora de descansar”. Descansar ou inexistir? É que a vida ainda lhe inspira a experimentar tantas coisas, que parece até melhor é entrar na fila para requisitar uma vida extra, com tempo suficiente para o que almeja.

Não me apaixonarei pelas manhãs
Não me entregarei às tardes
Não sobreviverei às noites

Na sua lista imaginária, atemporal, desprendida de virada de ano ou urgência, repousa um item que é tema recorrente da chacota alheia. Depois de tanto tempo dedicado ao trabalho, às conquistas, às descobertas, elas que, sem falsa modéstia, tornaram a existência de muitos mais proveitosa e fácil, pensa agora em atender àquele item, que anda desolado, pensando que jamais será realizado. Deseja que o item ocupe o devido lugar em sua biografia.

Em breve, meus lábios não dirão palavras
Meu corpo
Já habituado à estática
Sucumbirá ao desvario
Do tempo que passa

De acordo com os que pensam lhe prestar bom serviço, ao destacarem suas limitações, sua carne já não pode mais conhecer outra, que a essa altura do campeonato, qualquer prazer que lhe erice pelos é pura sacanagem, o que lhe é difícil de entender, já que, na sua parca compreensão de ser humano, amar alguém não sai de moda, não respeita tempo, não acontece de acordo com a quantidade de produtos rejuvenescedores consumida pelo cidadão no diariamente.

Deixarei de observar o mundo
Da janela da sala
Eu me debruçarei na janela do quarto
Mãos segurando um punhado de cabelos
Temendo que o tempo os leve embora

Amar é a coisa-sentimento mais elástica que conhece. É tão livre, que está nem aí para o que pensam as pessoas, e vai acontecendo.

Em breve, ainda que brevemente
Eu não existirei mais
E quem sentir minha falta
Terá de reaprender a me encontrar

Portanto, é o que espera nesse agora. Enquanto tantos celebram seu fim - com frases feitas e receitas de chá para aliviar dor aqui e ali -, ele se prepara para o frescor desse sentimento, que há de chegar, pois ele abriu as portas do coração, assim como libertou o desejo pelos toques, a vontade de ter companhia.

Que já passou da idade de interromper a chegada da felicidade.


Imagem: sxc.hu

carladias.com

Comentários

albir disse…
Carla Dias,
por que será
que você rima
com poesia?
Foi um privilegio ter lido essas linhas.Parabens
Carla Dias disse…
Albir... Rimo? Ah, que sortuda que sou! Beijo.

Discutindo momentos... É sempre um privilégio ser lida. Obrigada.

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