quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

VIDA PERFEITA #SQN >> Fernanda Pinho

Acordou atrasada e poderia ter atribuido à pressa o fato de a saia lápis 38 ter rasgado quando tentou vesti-la. Mas seria injusto com a pressa. Já havia se pesado secretamente e sabia que as festas de fim de ano lhe haviam trazido quatro quilos de volta. Optou por uma calça de cintura alta 40. A primeira que viu pela frente, já que não havia tempo para a escolha. Tudo bem. A calça também fazia um belo par com a blusa amarela de seda que estava usando pela primeira vez. Primeira e última, conforme lhe passou pela cabeça quando, ao chegar no escritório, sentiu o calor do café da mocinha do almoxarifado inundar sua barriga depois de um esbarrão inesperado. Diante do incidente, aceita emprestada de um colega uma camisa branca de malha, sem graça e masculina. Melhor que passar o dia melada de café. Tenta se concentrar no trabalho, mas sabe que não irá render enquanto não fizer aquilo. Vai ao banheiro e liga. Ele demora, mas atende. Ela despeja tudo o que havia ensaiado durante a noite de insônia. E coloca um ponto final. Mais um. Já foram tantos que virou reticências…

Enxuga as lágrimas, retoca o corretivo, passa duas fases no Candy Crush e já é quase hora do almoço. No restaurante de sempre, lembra-se do episódio da saia rasgada e pede uma salada. Come a salada. Lembra-se do episódio do telefonema e pede um prato executivo com picanha, farofa e batata frita. Come a picanha, a farofa e a batata frita. E um brigadeiro, já que foi almoçar sozinha e ninguém viu. Tudo certo. É a primeira vez em que sente alguma satisfação naquele dia.

Consegue até reunir alguma energia para passar a tarde analisando entediantes planilhas no Excel. Com fones de ouvidos devidamente ligados, uma vez que não suporta o ruído que o colega da mesa ao lado faz ao mastigar chicletes.

Antes do happy hour com as amigas, decide encarar a academia. A culpa pela picanha na hora do almoço ainda não foi digerida. Ignora solenemente a existência de alguns aparelhos e resolve que é dia de caminhar na esteira. Correr, só amanhã.

Como era de se esperar, o encontro com as amigas é revigorante. gargalhadas até a terceira dose de tequila que desce junto com as primeiras lágrimas, descumprindo a promessa feita quinze minutos antes de que não choraria mais por ele.

E chorou até a cama, onde encerrou aquele diazinho besta. Ou não tão besta. Ao menos, postou a foto do look do dia feita no elevador, escreveu no Facebook uma indireta em forma de frase atribuída ao Caio Fernando de Abreu, contribui com a imensa coleção do Instagram de fotos de saladas e pessoas na academia, contou pra todo mundo que estava ouvindo U2 durante o expediente, e deu check-in no bar onde esbanjou felicidade com as amigas.  




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