domingo, 12 de janeiro de 2014

DIA DE FÚRIA >> Whisner Fraga

Era natural que muitos de nós saíssemos de Ituiutaba, pois, naquela época, o município oferecia poucas opções para quem quisesse continuar os estudos. Pois bem, Uberlândia era uma cidade em crescimento e a universidade federal de lá, uma alternativa para nós. Éramos, em geral, pobres e, portanto, obrigados a dividir com desconhecidos as casas situadas nos bairros mais próximos dos câmpus Santa Mônica e Umuarama.

A primeira dessas repúblicas em que morei albergava sete indivíduos, de modo que necessitavam de um oitavo. Cheguei até lá porque um amigo de um conhecido do empregado do ex-patrão de meu pai sabia de um primo que morava em um apartamento que estava com a parte de baixo da beliche desocupada. O aluguel saía barato, apesar dos quatro quartos que o local possuía, e se encaixa no orçamento de meus pais. Sim, porque estudante de Engenharia não trabalhava naquele tempo.

Dos sete que lá estavam, quatro eram estudantes, dois bancários e um vagabundo. Como eu era calouro no curso de Mecânica, me tornei o quinto universitário. Não vou descrever os sujeitos, porque isso é matéria de romance, não de crônica. Romance que pretendo criar, diga-se de passagem. Aos poucos, fui me acostumando à rotina da república, que, evidentemente, tinha suas regras.

Uma dessas regras era sacanear alguém, de segunda a quinta. Porque, de sexta a domingo, quase todos viajavam e a baixaria não teria público. Não foi no primeiro dia que eles confiaram em mim, a coisa foi lenta e se deu no terceiro dia em que eu lá morava. Isso porque eles precisavam de outra pessoa para apoquentar alguém que merecia há muito tempo: um vizinho barulhento e mimado que morava com os pais, no apartamento de baixo.

Lá todos tinham apelidos e, a bem da verdade, não me lembro do nome de ninguém, mas sei que, quem me chamou para a bagunça foi o Batman, um conterrâneo. O motivo da alcunha, vocês podem desconfiar: ele tinha o hábito de dormir durante o dia e trabalhar à noite. Isso porque estava no último ano do curso de engenharia elétrica e estagiava em uma importante fábrica de cigarros. Ia pouco à universidade e acordava por volta das dezenove horas para alguma peripécia. Tinha tempo de sobra, pois só precisava estar no estágio a partir das vinte e uma.

Batman estava com um travesseiro a tiracolo e ambos conversávamos encostados no peitoril, reclamando da vida. Morávamos no terceiro andar. Na janela de baixo, o moleque fumava um cigarro e ouvia Iron Maiden. O tom de nosso papo foi mudando e dali a pouco eu gritava. Que a vida estava difícil, que eu odiava aquele lugar, que eu não me acostumara à vida estudantil longe de casa. Nisso Batman começa a me recriminar, que eu sou fresco, que eu devia crescer e tal. Fomos nos empolgando com a atuação e dali a pouco começamos a simular uma briga: tapas, pontapés, xingamentos e a coisa ia engrenando.

Até que, em determinado momento, ouvimos a campainha: devia ser alguém do prédio, preocupado. Não fomos atender e nem paramos com a comédia. Dali a pouco, o clímax. Eu berro: “seu filho da mãe, vai falar merda no inferno, eu vou te jogar lá em baixo!” Ouvem-se barulhos amedrontadores e um grito, ao mesmo tempo em que Batman atira o velho travesseiro janela afora. Do apartamento de baixo escutamos um caos de gente desesperada, um gordinho uivando, num falsete de dar pena, que alguém lá de cima morrera esborrachado.



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4 comentários:

albir disse...

Whisner,
muito divertidas suas memórias.

Zoraya disse...

Whisner, transforma logo isso em romance, vai!

whisner disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
whisner disse...

Zoraya e Albir, muito obrigado pela leitura. Um grande abraço aos dois.