quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

PELO DIREITO À CERVEJINHA >> Fernanda Pinho


Meu marido não toma bebida alcoólica. Refrigerantes? Gosta de poucos. Geralmente opta pelos de laranja ou por suco. Eu também vivo tranquilamente sem álcool, mas não resisto a uma cervejinha gelada num dia quente ou a uma tacinha de vinho num dia frio (usar o clima como desculpa. Quem sempre?). Foi assim que a cena se tornou um clássico em nosso relacionamento: temos o hábito de apenas um dos dois fazer o pedido quando chegamos a um bar ou restaurante. Poder ser ele, pode ser eu. Depende da disposição de cada um.  Sem saber quem pediu o que, o garçom invariavelmente faz a mesma dedução: o chopp pra ele e o suco de abacaxi com hortelã pra mim (eca! Odeio abacaxi com hortelã). A gente ri e destroca os copos, sempre com o cuidado de fazê-lo diante dos garçons. Adoro ver as caras envergonhadas.

Na hora de pedir os pratos, a cena se repete. Eu  gosto é de carne e massa e, por mais que eu tente ousar nas minhas escolhas vez ou outra, é uma pizza com borda recheada de catupiry que faz meu coração bater mais forte. Ele não. Especialmente à noite, que é quando costumamos sair para comer e beber, meu marido tem predileção por grelhados, peixes, saladas. E os pratos, tcharam!, vêm trocados.

Se você duvida, te convido a jantar um dia com a gente. Se você compreende a lógica utilizada pelos garçons, tenho uma notícia pra te dar: você é machista (e não está convidado para o jantar).

Há algumas semanas, um amigo do Maranhão postou em seu Facebook a foto de um out-door que convidava para um happy hour num determinado shopping. A peça publicitária era porcamente ilustrada com a foto de uma caneca gigante de chopp e dois homens sorridentes. E não precisa nem muito esforço para imaginar que se a campanha fosse de liquidação nas lojas teríamos mulheres no cartaz.

Triste. E mais triste ainda pensar que essa mentalidade não está apenas na cabeça dos garçons brasileiros (e chilenos, e argentinos) nem dos publicitários maranhenses. É uma lógica arraigada tão profundamente na cabeça de todos que que o machismo acaba virando o óbvio, a dedução natural.

Mulher que bebe é sem modos. Mas se beber, que faça uma dieta. Não vá pedir uma pizza num restaurante porque barriguinha boêmia só é charmosa em homem. Desse jeito, não vai encontrar nada que te sirva na liquidação do shopping.

(E fica esperta. Marido que pede suco de framboesa? Não sei não...)



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Um comentário:

silvia tibo disse...

hummm... também não abro mão da cervejinha semanal!
ótimo texto!
beijo!