VELOCIDADE >> Carla Dias



Uma vida minha por um instante seu.

Quem sabe negociar promessas, rezas, vontades e alegrias quaisquer. Filho que nasce, flor que nasce e a nascente da palavra-poesia. Qualquer coisa que me livre dessa casca, da máscara e da revelia que me dói nos ossos e desconjura consciência. O que me ensine a extrair canções do pôr do sol e emoções estandartes do toque ágil de dia de chuva repentina.

Não há como desviar o olhar da coreografia do gesto: mão a amansar os cabelos da partida. E reconhecer o gosto da saudade amanhecida na boca, inundando a alma. 

Há velocidade conduzindo o tempo que marca a nossa pele, e que, de tempos em tempos, redecora a nossa filosofia. Não nos abandona, não nos acorrenta, mas não consegue evitar de nos arremessar à vida. Seja ela mansa, atropelada ou invadida pelo olhar de um anjo de asa partida, desconfiado que anda das preces negociadas no ventre do medo.

Há velocidade na necessidade de cavoucar poros do dia de aclarar ideia de antes perdida. Aquela que sabe realizar desejo antigo, rasurado, escondido num suspiro guardado em canto qualquer de um coração que aprendeu a recitar silêncio por não suportar o barulho da mágoa.

Pausa para bebermos o doce do amargo do tempo que passa e apreciarmos as histórias que ele vem tecendo para nós. Cada hoje guardado no baú da vida é presente, lembrança, o real esculpido no sentimento gerado pela dor repetida. 

A velocidade nos adorna com seus colares de cristais e sinas pré-fabricadas. 

Minha companhia por um instante seu? Saiba de vez... aceite o que é oferta: despertar.

Dividir planos, horas, alegrias? 

A velocidade da busca a se eriçar para alcançar felicidade arredia.


Imagem © Rodrigo Scott

"Velocidade" faz parte do Crônica de um ontem e foi publicado originalmente em 6 de janeiro de 2002, Essa versão contem algumas alterações/inclusões.

carladias.com


Comentários

branco disse…
hey, hey carlinha...ainda estava digerindo a última crônica, mas me sentei aqui, com um jatai que ganhei, cheiroso, cheiro de tudo o que foi bom (mesmo o que não foi, hoje parece menos ruim rs). então pelo cheiro, pelos ontens comecei a ler está sua coisa linda de 2002. logo na primeira linha me lembrei de algo que escrevi (troco um amanhã por todos os meus ontens (desculpe-me pelo neologismo)) e fui lendo e me encantando, e como sempre termino assim...encantado e em estado de deslumbramento.

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