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ESCREVER DÓI >> Sergio Geia



E a vida continua, mesmo com pandemia. A vida dos que conseguiram vencer o coronavírus, como tia Adélia e seu Diamantino. A vida dos que não se infectaram; pelo menos até agora. Não a vida dos 100.000. Essas, não continuaram. Nós e os Estados Unidos batendo recordes de mortes. Algo em comum? 

Ando num momento estranho literariamente falando. Passei a me dedicar mais aos contos. Surgem fiapos de ideias, como diz o Tezza. Anoto num caderno. Pode ser uma ideia, uma imagem, uma situação qualquer, mas é fiapo, pequenino, quase nada, demanda um doloroso processo de construção. Doloroso porque dói. Não é simplesmente escrever, pronto, acabou. Escrever dói. Porque é construção. Você ergue o conto, depois percebe que ele não está bom, põe tudo abaixo, numa implosão que machuca. Ou você vai erguendo o conto e segue até o final. Depois você volta e começa a mexer, muda verbos, o tempo, reescreve parágrafos inteiros, diversos parágrafos, às vezes tudo. Ou você imagina uma história e vai escrevendo, escrevendo, de repente a história não é mais a história que você imaginou, ela se modifica no meio do caminho, você tinha um final, mas a história pede outro. Sim, acontece, não é papo furado de escritor. E quando você termina o conto? Ah, quando você termina o conto e o considera minimamente bom, a sensação é de orgasmo literário. 

Já escrevi contos lá atrás. Na ATL, a Academia Taubateana de Letras, ganhei certa vez um concurso com o conto O que acontece depois, tema do Celso Brum, mas era um conto curtinho, uma página e meia. Pela primeira vez estou a me dedicar com seriedade ao trabalho. Já entreguei para alguns amigos, feedback é sempre bom, como a Cristiana Moura, a Zoraya Cesar, escritores aqui da casa, a amiga Adriana Campos, a Chiara, amore mio. 

Ando lendo contos como nunca. Lygia Fagundes Telles, essa diva do conto. Tenho uma coleção dela aqui. A noite escura e mais eu e Antes do baile verde. Comprei Seminário dos ratos, Invenção e memória, A estrutura da bolha de sabão, Um coração ardente. Cíntia Moscovich, outra contista que habita o mundo dos gênios. Essa coisa brilhante que é a chuva, Arquitetura do arco-íris e Anotações durante o incêndio. Sem falar no Caio Fernando Abreu, que tenho todos os contos dele, o Bestiário de Julio Cortázar, que li recentemente, A visita de João Gilberto aos novos baianos do Sérgio Rodrigues, Aquela água toda do João Anzanello Carrascoza. E os já lidos em outros tempos, como Sergio Sant’anna, Marcelino Freire, Rubem Fonseca. Depois de assistir ao Whisner Fraga falando em Acontece nos livros, está a caminho o Testado em Animais, de Rafael Zoehler. E falei também com o Carlos Gildemar Pontes, logo chega o seu O olhar tardio de Maria

Mas ando num momento estranho literariamente falando porque embora os contos estejam fluindo, o mesmo não acontece com as crônicas. Estou vivendo um momento de aridez no processo. Talvez porque no conto funcione mais a imaginação, a criação literária, a construção de uma história. A crônica, em regra, sempre parte de uma história real, e com esta pandemia e o isolamento, estamos num momento de secura de histórias. 

Hoje tinha que escrever crônica, eu precisava. Depois de caminhar pela manhã, de ver tanta gente sem máscara nem aí com a pandemia, voltei, tomei banho, café, coloquei música clássica, a começar por Herz und Mund und Tat und Leben, de Bach, no piano de Myra Hess, e saiu esta reflexão literária sobre o meu processo criativo. Talvez não interesse a muita gente. Quem sabe os contos interessem, se forem bons, mas isso só o tempo dirá. 


Ilustração: Granato

Comentários

Fran Fatima disse…
Muito bom.
Albir disse…
Que interessante, Sérgio!
A ficção é mesmo um refúgio. Dói mas gratifica. A crônica nem sempre.
Zoraya Cesar disse…
Sinto-me honrada de ter lido seu conto, Grande Cronista das Pequeninas Coisas! E essa de hoje está maravilhosa!!!
Carla Dias disse…
Acredito que a crônica funcione tão melhor quando falta. A sua está excelente, Sergio. Obrigada por ela.
sergio geia disse…
Grato, queridos Albir, Zoraya e Cris. Tenho certeza que comungamos do mesmo sentimento e apesar do sofrimento, escrever é primordial para o nosso existir.