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RESPIRE >> Carla Dias >>

Cordiais violências consumidas, diariamente. Suas obsoletas buscas por respostas que nem cabem mais em perguntas. Porque a roda gira. Tudo se transforma, por isso andamos por aí, tontos... ligeiramente desconectados da realidade.

Que somos ávidos consumidores de pausas. Nós as achamos encantadoramente desleixadas. De quando esbarram em horas, para então escoarem em sutis despreocupações. Por que o mundo precisa de nós entranhados em apreensões? Já não são muitos os sôfregos içados pelas suas unhas serrilhadas? 

Não ignoramos as agonias, tampouco desdenhamos das maledicências e seu poder fogo. Respeitamos o que é capaz de ferir e mutilar o espírito. Não somos sonhadores de sonhos que não valem nada, nem mesmo para quem os sonha. No entanto, somos das pausas, da itinerância dos alívios que elas trazem para completar par. Da maciez da presença delas que amansa urgências distorcidas, acostumadas a ecoar aos berros. 

É que tem hora em que os sons endoidecem a gente. Que eles chegam aos calibres, aos gritos, em dores, empanturrados de indiscrições e invencionices, dizendo atrocidades com a competência dos melhores oradores, aqueles que sabem convencer os mais céticos de que tudo o que os maltrata é conta a ser paga, desembaraço de destino, irreverência do mercado, dividendo da evolução, déficit da sorte.

Não o culpe pela gargalhada. Ela vem travestida de pausa, em dias em que ele não suporta mais carregar o peso das memórias - as que existem e as das quais sente falta. Quem já sentiu falta de memória não acontecida sabe sobre o que falo. Não o culpe por silenciar diante das tragédias. Ele tem nada a dizer, porque não o consola poder confortar, quando foi incapaz de impedir. Quando ele sair da sua presença, não o culpe pelo desaforo. Certamente, ele tem nada a dizer que seja construção. Porque há dias em que ele não nasce do adormecimento, perdendo-se em uma falta imensa de si. 

Não me culpe por confortá-lo com pausas improvisadas, porque sempre lidei bem com remendos, cacos, desamparos. Não pense que saio perdendo nesse aprendizado. Aprende-se muito com quem está disposto a entregar um pouco de si, paulatinamente, enervando a paciência do outro.

Há dias em que me canso e faço uso de uma pausa de mim mesma. Daí que sumo das pessoas, voltando apenas quando sou capaz de sorrir, mesmo quando a tristeza nos cerca, dentes afiados. Fujo de todos, mas não dele: minha pausa.

Não nos culpe por não permitirmos que as tragédias nos enverguem, até que não saibamos mais gargalhar, sorrir, cantarolar canções ácidas sobre pessoas boas. Por parecemos insanos ao flertarmos com levezas, diante da realidade pulsando medos, abismos, solidões. 

Ou nos culpe, não importa. Não temos fôlego, tampouco desejo suficiente para alicerçar preocupações sobre o que pensam sobre nós. Mas não se iludam, porque nos importamos com o que pensamos sobre os outros, se não amortizamos violência, disfarçamos brutalidades, reinventamos desculpas impulsionadoras de mágoas, apenas porque decidimos não observar com mais atenção, escutar de verdade cada verdade desfiada aos sons dos tambores dos lamentos ou dos deleites.

Precisamos dessas pausas encharcadas de amenos prazeres, prolíficos sentimentos, remanso autor de conexões.

Respire.

Imagem: Prudence And Desire © Frances Macdonald

carladias.com


Comentários

Sandra Modesto disse…
Respirei! Parabéns pela crônica.
Carla Dias disse…
Sandra, minha cara, que bom que respirou. Beijos e obrigada pela leitura!