domingo, 19 de fevereiro de 2012

DE GATOS E HOMENS >> Whisner Fraga

Não foi a vida toda que gostei de animais. Quando criança, me recordo que minha família criava periquitos. Na casa da avenida 38A, um desses bichinhos cantava o dia inteiro a sua prisão. Viver confinado a um terreno não devia ser agradável, mesmo tendo comida garantida e um poleiro pra brincar de vez em quando. Para que não fugisse, aparavam-lhe as asas. Assim que um morria, davam um jeito de conseguir outro. As aves eram como brinquedos ou passatempos, nunca entendi muito bem.

Depois foi a vez dos cachorros. Esses, eram meros utilitários e ficavam isolados, no quintal, sem muito contato com os humanos. Ou seja: tinham a tarefa de vigiar a casa e o soldo era uma muxiba malpassada misturada a um fubá, pois naquela época não existia essa moda de ração. De vez em quando, assim que o animal começava a emagrecer, alguém se lembrava de exterminar os carrapatos e pulgas do couro do bicho e era o máximo de carinho que ele recebia durante o ano.

Depois, quando fiquei amigo do João, percebi que ele lidava de um modo diferente com os gatos que desfilavam pela sua casa. Não chego ao exagero de afirmar que eram membros da família, mas tinham direito ao cantinho no sofá, a afagos frequentes e a outros benefícios. Podiam sair pelas ruas, namorar quem quisessem e voltar a qualquer hora para o seio de uma almofada. Achei aquilo estranho, não estava acostumado a enxergar um animal como uma criatura que merecesse respeito. E como as coisas mais simples são as mais difíceis de aprendermos, demorei a seguir o exemplo do meu colega.

Mais tarde, graças a uma toxoplasmose que arrebanhei num restaurante universitário, comecei a ficar chateado com os felinos. Os médicos, assustados com o surto da doença, deram explicações que qualquer enciclopédia Barsa desmentiria com facilidade. Mas essas explicações ficam na cabeça da gente. Não cheguei a maltratar qualquer animal, mas passava longe deles, com um olhar de mágoa, um pouco chateado. Demorei a entender que os bichos não tinham culpa nenhuma, a culpa era dos irresponsáveis que deixaram que eles entrassem, sujos, na cozinha do restaurante e subissem nas mesas e lambessem os garfos e fizessem sabe-se lá mais o quê.

Hoje eu tenho três gatos e costumo rir de um clichê muito bobo que espalham por aí: que seria melhor adotar uma criança a dar conforto e abrigo a um animal. Besteira. Primeiro, que cuidar de uma criança é uma tarefa mil vezes mais complexa e dispendiosa do que tratar de um bicho. Segundo, porque o processo de adoção em nosso país é complexo e demanda muito trabalho, paciência e tempo. Terceiro: se alguém quer ter um animal em casa pode não querer ter uma criança, certo?

De modo que sempre pensei que cada um tem o seu lugar e deve respeitar o do outro, mas, convenhamos, o homem tem ocupado e muito o espaço alheio. Nunca vi criatura mais desrespeitosa e egoísta do que o ser humano. É por isso, talvez, que exista tanta gente que respeita mais um gato ou um cachorro do que o vizinho. E deve ser por isso que tem tanto homem que judia de animais. As leis tentam educar, mas muitas vezes as penas são muito brandas. Sem falar da fiscalização. Ainda há muito o que aprender sobre o respeito e sobre a convivência em sociedade.



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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

E há vários preconceitos, inclusive com as barbaridades feitas a animais não punidas: "Se faz isso com um bicho, pode fazer com um ser humano". Qual a distinção entre a maldade contra animais ou humanos?
Maldade é maldade...
E só quem tem um (quatro, no meu caso) gato sabe o quanto é fantástico dividir vários cantinhos do sofá! :)
Adorei o texto e que bom que os felinos acabaram por te conquistar!

whisner disse...

Marisa,

obrigado pelos comentários. Ultimamente tenho lutado, como tantos outros, para endurecerem as leis contra aqueles que maltratam animais. Os bichos são uma coisa maravilhosa. A verdade é que me tentaram convencer do contrário. Um abraço!

Zoraya disse...

Whisner, que bom saber de mais um lutando contra a maldade,como disse a Marisa. às vezes nem é maldade, é ignorância mesmo, mas acho que há um grande fundo de verdade no ditado " a ignorância é a mãe de todo o mal". E, puxa vida, quem diz que é melhor adotar uma criança a adotar um bicho, nao tem a mínima ideia de uma coisa nem outra. E sobre adoçao de filhos, realmente, pelo menos no Rio de Janeiro é uma dificuldade só, eu que o diga...