domingo, 12 de fevereiro de 2012

RECEITA DE JUNTAR CABEÇAS
>> Eduardo Loureiro Jr.

"Porque a cabeça da gente é uma só, 
e as coisas que há e que estão para haver 
são demais de muitas, muito maiores diferentes."
(Guimarães Rosa)

Costuma-se dizer que duas cabeças pensam melhor do que uma. Poucos discordariam. E três pensam melhor do que duas? Quatro melhor do que três? Dez melhor do que nove? Poucos concordariam. E, ainda assim, deve ser verdade. O problema é que é mais fácil administrar duas do que dez cabeças.

Nesse final de semana, eu estava incumbido de fazer dezessete cabeças pensarem melhor do que cada uma. Cabeças de escritores, o que é mais complicado. Porque cabeça de escritor já não é cabeça de um só, é cachola povoada de não sei quantos personagens cada uma. Enfim, uma tarefa impossível, daquelas a que a gente se entrega por mero desencargo de consciência, apenas para dizer, ao final, "fiz o que pude, não deu certo, paciência".

Mas, surpreendentemente, deu certo. E agora sinto necessidade de deixar registrado para, caso eu precise repetir a façanha no futuro, já tenha a receita anotada em algum lugar — aqui, bem na frente de vocês.

O primeiro ingrediente é o tempo. É preciso horas aos montes para juntar cabeças. Uma hora para cada cabeça está de bom tamanho.

Depois é preciso desembalar e abrir cada cabeça. Deixar que cada uma fale à vontade, embora não ao mesmo tempo. Uma pitada de ordem — ou até mesmo uma colher de sopa dela — é essencial. Uma cabeça precisa colocar todos os seus pensamentos para fora; depois, outra cabeça; em seguida, uma terceira. Lá pela décima cabeça, talvez a primeira, ou a segunda, queira expor uns pensamentos novos ou esquecidos. Há que se ter paciência para remover as embalagens dos pensamentos. Umas são de plástico, outras de isopor, outras de vidro, outras de papel. Todas geralmente frágeis, ainda mais em se tratando de escritores. A embalagem — que vai mesmo para o lixo, para a reciclagem — pode até sofrer algum dano, mas é importante que se conserve o conteúdo dos ingredientes. Não há como fazer omelete sem quebrar os ovos, diz o ditado, mas é importante se certificar de que pedacinhos de casca de ovo não ficarão grudados na gema ou na clara. Essa preparação é a parte da receita que toma mais tempo, e não deve ter hora para acabar. Se tiver que tomar todo o tempo, que tome; nem que se tenha que guardar, na geladeira, os ingredientes previamente tratados para uso posterior.

Depois dessa fase, é preciso um descanso: vinho, água, almofadas, penumbra, conversa, brincadeira. As cabeças foram muito exigidas na primeira etapa, e é preciso relaxar um pouco o juízo. Uma boa dose de besteirol pode ser o mais justo tempero da receita, principalmente se seguido de uma noite de sono.

No tempo que resta, é preciso fazer o ajuntamento propriamente dito das cabeças. Fala-se menos nessa fase. Os pensamentos precisam ser expressos não pela fala. Palavras devem ser usadas tão parcimoniosamente quanto pimenta vermelha. Melhor mesmo apelar para as cores: pensamentos menos relevantes devem ficar invisíveis; pensamentos importantes em verde-limão; pensamentos essenciais em laranja. Pode-se colar os pensamentos de cada cabeça na parede, agrupando-os por afinidade. Com isso, a tensão passa e é até divertido ver as cabeças atônitas diante da combinação de seus pensamentos na parede. O pensamento de cada pessoa não está mais isolado, misturou-se. A gente pode até ser tentado a "despensar" o que pensou, ou então a dizer que o grupo pensa isso e aquilo, mas contra cores na parede não há argumentos. O pensamento do grupo está escandalosamente evidente em verde-limão e laranja.

Por fim, como de toda receita que se preza, é preciso provar, beber, comer. Há que se colocar para dentro o pensamento que a princípio se colocou para fora. Mas cada cabeça não traz para dentro de si apenas seus próprios pensamentos anteriormente expressos. O pensamento que volta é o pensamento combinado de tantas outras pessoas. E, como escreveu Guimarães Rosa, "a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total".



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5 comentários:

albir disse...

Que interessante, Edu! E difícil. Mas não te falta arte e habilidade. Sucesso.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Gosto da tua cabeça, Albir. :)

Lcardoso disse...

Junior, querido!
Ha' meses estou relendo o Sertao Veredas. To quase na metade. Muitas vezes eu nao consigo avancar. (Sem intencao mesmo de me apressar). Vou relendo os trechos que sublinhei e fico me deleitando com os pensamentos. No final de semana passado reli o trecho que voce destacou na cronica. Agora, sempre que passar por ele, vou lembrar de vc!
Beijo carinhoso,

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Lídia, GRANDE SERTÃO é bom assim: devagar'inho. :) Sempre bom quando suas palavras atravessam o serTÃO das minhas crônicas. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Minha cabeça estava nas nuvens, enquanto lia, com a atenção garantida de quem tem cabeças nas nuvens, a sua crônica. E não conseguia parar de cantarolar uma música do Élio Camalle, a Cabeça... "Cabeça de um negro alemão/De um índio japonês, cantor de blues/Cabeça de ateu, esperando Jesus/Com trinta e cinco mil anos luz/Cabeça de pedra, de vidro, de farpa/Cabeça de cera, de pano, de lata". A uma bela canção que serviu de trilha sonora para a leitura de um ótimo texto.