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MEU CORAÇÃO SERÁ SEMPRE
UMA DE SUAS CASAS
>> Maria Rachel Oliveira

Parece que foi ontem que ela era pequena e ainda precisava que eu arrumasse seus livros, conferisse seu dever de casa e a levasse até a escola. Pois esse ano, Maria filha debutou no que chamávamos outrora de segundo grau – que hoje, se não me engano, atende pelo nome de “ensino médio”. E independente que só, lá vai ela às 7h da manhã – antes mesmo de eu acordar – linda, magra e esperançosa por mais um dia de colégio. Pressuponho – como pressuporíamos todos – que mais ansiosa pelos encontros, pelos convites pra festas e pelas novidades reunidas do que pelo conteúdo das aulas. Atire a primeira pedra quem acordava às 6h da manhã pra fazer escova e ficar bonita por conta da aula de história.

Como são gostosos esses três anos e como passam rápido! Entre o primeiro e o último são tantas químicas, tantas festas, tantas histórias, tantas emoções e tanta física... que num instantinho já temos que escolher o que pensamos querer fazer do resto da vida e meter a cara pra estudar pro vestibular.

Quantos grandes amores, quantas decisões seriíssimas, quantos beijos memoráveis, quantas brigas pra sempre e quantas fossas, fossas!, esperam por ela nesses pouco mais de mil e um dias? Das minhas lembro de uma em particular: como me achava incapaz de conquistar um determinado garoto, sofri por antecipação ouvindo sem parar “The Winner Takes it All” num cassete – rewind e play, feito TOC - e chorando como se descascasse quilos de cebola. Doeu tanto, tanto... e num período de aproximados quinze dias eu estava namorando o tal moleque. Tudo tão intenso, tão rápido e tão... pouco definitivo. E, ainda assim, tem horas que parece a morte.

Quando caiu a ficha, em termos anciãos, “ela já está no segundo grau”, eu perdi a respiração. Acho que por uma mistura de apreensão com um pouquinho inveja. Como dói tanto e como é tão bom – tudo - nessa fase pela qual a grande maioria de nós já passou, não é?

E mais outra: alguém aí já teve notícia de moça que chegasse virgem à faculdade? Xis na coluna das apreensões. Me pergunto todo o tempo: será que eu já informei e conversei o suficiente? É digno torcer para que a moça só desafie a lei da física fazendo com que dois corpos ocupem o mesmo espaço quando houver amor? Será que já aconteceu e eu não sei? (desmaio) Sou é uma quadrada dos infernos, isso sim! Melhor que aconteça do jeito dela, seja esse qual for. Tive uma primeira vez aos 17, no segundo ano, com um namorado que foi muito importante na minha vida - e, coisa que agora mãe enxerga, ufa!, usamos camisinha. E aquela sensação de fazer sexo com amor pela primeira vez? Céu, céu, céu! Alguma coisa pra comparar com isso? Nada. Ter um filho é um tamanhão de emoção equivalente, mas é completamente diferente e não dá pra pôr na mesma balança. E, ainda que ela seja desencanada dessas caretices românticas, em breve, em algum momento, esses dois irão se encontrar...

Claro, espero também que ela não odeie tanto as chamadas ciências exatas quanto eu. Ô coisa chata. E três anos desses assuntos levados a sério, ninguém, ninguém mesmo!, merece. E os amigos? Que encontros ela terá nesses anos que possam se transformar em companheiros pra vida toda? Quem ainda vai estar por perto quando eu for velhinha e visitar os meus netos? Que matérias ela vai escolher pra matar aula? Ah, e que ela não me ouça!, como é bom e perigoso matar aula!

Por outro lado, já tô com sono só em pensar quantas noites não irei dormir, de novo, quando ela demorar a chegar em casa da “balada” ou quando precisar fazer hora pra busca-la às 4h da manhã naquela casa de festas que fica um pouco depois da rua em que Judas perdeu as botas.

Como mãe ou como pai a gente sempre tenta fazer do jeito certo. Tenta equilibrar o colo e o direito dos filhos à privacidade. Mas onde tem um termômetro que meça nossas doses? Sei que me sinto como quando a segurei pela primeira vez nos braços! E agora, José?

O jeito é aprender enquanto vai se vivendo. E torcendo. Porque, ahhh... quantos futuros possíveis trazem essas mil e uma noites que vêm pela frente dela! Que sejam mágicas, como os dias, feito conto de fadas.

Mães, mães. Somos ridículas, não é? Depois daquele primeiro dia de adaptação na creche – em que eu chorava enquanto ela se entretinha felicíssima com os coleguinhas – chegamos a uma segunda despedida no nosso caminho, ela e eu. Que o dela seja bom. E dedos cruzados para que ela sempre saiba que meu coração sempre será uma das suas casas.

Comentários

Claudia Letti disse…
Que delícia de crônica, Rachel. Lembrei das minhas angústias com a minha Marina que hoje, já na faculdade, ainda me faz esperar acordada das baladas -- não porque eu esteja preocupada mas pq queremos é fofocar, ora essa. :) Parabéns e beijo pras duas Marias por mais uma etapa vencida e pela etapa gostosa que está por vir! :)
Zoraya disse…
Rachel, que coisa mais linda e suave! Fiquei muito emocioanda. Mesmo. E "meu coração será sempre uma de suas casas" é demais. Muito obrigada! Sua filha tem sorte
Belo título e bela crônica de desapego, Rachel!
Somos 5 disse…
Lindo, Rachel! Seu texto toca o coração de cada uma de nós, mães. Lembro-me que escrevi para a minha filha mais nova, Teca, no dia em que ela deu seus primeiros passos, que esperava que elas a levassem para bem longe, por lindos caminhos que a ajudassem a conhecer o mundo. Mas que também a trouxessem sempre de volta para a sua família. Acho que é esse o sentimento, deixar partir, mas manter sempre a porta aberta. é bem difícil.
DANNY disse…
nossa me vi nessa cronica raquel,sou desse jeitinho com a minha ariel,somos realmente bobas de amor!
danny disse…
MARAVILHA SOU ASSIM COM ARIEL E CLARENCE MEUS ANJOS MAIS VELHOS MAS AINDA TENHO MUITO A PASSAR POIS FALTA ELOAH NESSA FACE! MEU DEUS COMO SERIA BOM QUE ELES FICASSEM CONOSCO!
Meninas e menino querido, obrigada por dividirem comigo esse sentimento, viu? É reconfortante a gente se sentir compreendida numa hora dessas!

E Zô, quem tem sorte sou eu. Maria filha é o máximo! Só é um tantinho distraída demais, mas tem um coração imenso! Saiu muito melhor do que eu!
albir disse…
Feliz por você e sua filha, e feliz pela continuidade de suas crônicas. Fico imaginando seus novos alunos encantados com seu texto na Livraria da Travessa.
O título poético, inspirador, doce e terno, como só um coração de mãe é capaz de ser.
Viver é escrever sem borracha, já disse Millôr. Acrescento que a vida não admite ensaios e vamos vivendo!
bj
r a c h e l disse…
Albir e Renato, vocês são uns queridos! :)
Beijo!!!

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