quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

VOAR É PRECISO >> Fernanda Pinho




"Às vezes é bom fazer  o que tiver medo.
Porque dizem que Deus ajuda a quem ajuda a si mesmo".
[Sérgio Britto]

A princípio não significou muito para mim aprender que os seres vivos "nascem, crescem, se reproduzem e morrem". Eu tinha seis ou sete anos e achava que não havia motivos para me preocupar, afinal meus pais ainda não tinham se reproduzido. Mas logo veio o entendimento — que muitas vezes mais atrapalha que ajuda — de que eles não apenas já haviam se reproduzido como eu era o resultado disso. Eu! "Agora eles vão morrer", pensei, alarmada. "Vão morrer e eu serei órfã como o Mário Ayala", concluí já me vendo com o mesmo destino do personagem da novela Carrossel, que vivia sob a custódia de uma madrasta má. Conclusão: toda noite, após a exibição da novelinha, eu chorava de pena do Mario e de medo dos meus pais morrerem.

Foi a primeira vez que fui punida pelo meu medo. Incomodada com meu excesso de drama, minha mãe me proibiu de ver a novela. A parte ruim foi que ficava por fora dos assuntos sempre que meus colegas de escola comentavam o capítulo anterior. A parte boa foi que reprisaram a novela várias outras vezes e, já com mais maturidade, pude acompanhar sem maiores traumas.

Separar a vida real da ficção foi algo que a maturidade não demorou a me mostrar. Por outro lado, foi com muito custo que aprendi que, ao contrário das novelas do SBT, a vida não tem reprise. Se você perde uma oportunidade por medo, é grande a possibilidade de você nunca mais ter outra chance.

Digo que custei a aprender porque sou uma pessoa de natureza fóbica. Sabe esses medos básicos, tipo medo de fantasma, cachorro, barata? Pois é. Tenho todos. O mais grave, porém, é o medo de avião. Nunca deixei de viajar por isso, mas é sempre um sofrimento. Posso passar horas dentro de um avião sem conseguir, um minuto sequer, me esquecer de que estou dentro de um avião. Não tem conversa, filme ou livro que me distraia. Passo o tempo todo monitorando os rostos das aeromoças, procurando algum indício de desespero. Se elas desaparecem por meia hora já imagino que a tripulação está toda reunida na cabine, numa reunião convocada pelo comandante, que prepara sua equipe para a tragédia que está para acontecer.

Por tudo isso, há alguns anos coloquei na minha cabeça que dificilmente viajaria para o Chile por não suportar a ideia de sobrevoar a Cordilheira dos Andes. Porque eu tenho essa coisa idiota de alimentar meu medo consumindo produtos como o filme "Vivos". É só um filme? Sim. Mas baseado na história real do famoso acidente aéreo acontecido nos Andes, em 1972. Para quê, então, sair da minha zona de conforto e me expor a uma coisa dessas? Para molhar os pés nas águas do Pacífico enquanto aprecio o espetáculo de gaivotas e pelicanos? Para comer empanada com refrigerante de mamão? Para visitar a bucólica casinha de Pablo Neruda? Para me encontrar com meu amor e ter uma merecida e antecipada lua-de-mel? Por essa eu não esperava, mas foi o que a vida armou para mim.

Já na volta para o Brasil, enquanto, do avião, eu apreciava a estonteante vista proporcionada pelos Andes, deixei escapar uma lágrima e um sorriso. Uma lágrima de gratidão a mim mesma por ter enfrentado meu medo. Um sorriso de promessa à lindíssima cordilheira: eu voltarei. 


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6 comentários:

Laís Bastos da Silva disse...

Que lindo!! Acho que enfrentar os medos é preciso, descobrimos o outro lado e corremos o risco de gostarmos, como foi seu caso. Lindo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Fernanda, o título do filme não é à toa: aqueles que superam seus medos se tornam VIVOS. :)

Zoraya disse...

Quem enfrenta os medos sempre sai vitorios. às vezes com as pernas bambas e o coração na boca, mas vitorioso. Muito legal!

albir disse...

Que beleza, Fernanda. Não esqueça de nos contar sobre as próximas viagens.

Akina disse...

Fernanda eu faço curso de piloto comercial e posso lhe afirmar que vc estava mais segura do que quando vc dirige e acabam buzinando para vc rsrs.

Flávia Carvalho disse...

Oi Fernanda,
Me vi inteiramente nessa postagem.
Como pode ser tão difícil e ao mesmo tempo emocionante enfrentar um medo?
Acabei de chegar de uma viagem ao Chile e meu medo de avião é simplesmente idêntico ao que vc descreveu.
Portanto não consegui, mesmo com o coração na boca e a adrenalina a mil, tirar os olhos daquela paisagem simplesmente deslumbrante sobre as Cordilheiras.
Só de pensar naquela cena me causa uma ansiedade por dentro.
Porém, mesmo com todo esse medo, prefiro o nervosismo de ter enfrentado do que a tranquilidade de não ter saído daqui.
Abraços