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UM ARRANJO DE PALAVRAS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Quis o exatíssimo Senhor Tempo que coincidissem, neste domingo, dois eventos cuja simultaneidade me deixa perplexo: o velório/sepultamento do corpo do marido de uma querida amiga E o aniversário de dois anos de meu casamento com minha esposa.

Hoje, também, as floriculturas não entregam flores. A princípio, fiquei incomodado e quis reclamar, escrever uma crônica anticarnaval, definitiva, começando pelas estatísticas de aumento no número de acidentados e mortos, e chegando até esse absurdo do impedimento da livre circulação das flores. Mas depois fiquei pensando, cá com meu coração, que as flores, essas moças delicadas, bem que merecem ficar a salvo da agitação de momo.

Tal compreensão, claro, não me livrou da necessidade de flores para esse dia tão importante. Tratei de descobrir como se faz um arranjo de flores. Mais surpresas. Confira a lista de material necessário, caro leitor: tesoura, alicate, tijolo floral (não sabia nem que isso existia), suporte plástico para o tijolo, arame de grampo e — para meu alívio — flores. Vê a turma em que estão metidas essas formosuras? É preciso cortá-las e prendê-las antes que elas gerem, na pessoa que as recebe, aquela expressão de alegria, aquele sorriso aberto de orelha a orelha.

Tesouras, alicates, tijolos e arame não me faltam. Suporte... às vezes falha, mas já providenciei algum para a ocasião de hoje. Resta escolher as flores: pela vista, pelo tato, pelo aroma...

A flor de quando conheci minha esposa merece constar neste arranjo. Ela de costas, olhando a paisagem, compondo a paisagem, bonita como a paisagem. E meu impulso de ir até lá, conversar com aquela desconhecida antes que se fechasse a portinha de oportunidade de nosso encontro. Não lembro o que eu disse, mas devem ter sido as palavras certas: aquelas que vêm do coração.

A pele da minha esposa só pode comparada, em sua suavidade, com o tecido divino de uma pétala de flor. Ela vai dizer que são os cremes. Talvez. Eu penso ser outra coisa: seus pelinhos discretos e delicados. A pele de minha esposa é um excelente motivo para eu ter conservado minha mão ausente de calos. É gostoso ter minhas mãos à flor da sua pele.

O amanhecer, a alvorada, a alba, é uma flor alaranjada que tem o cheiro de minha esposa. Meus dias sempre começam com seu cheiro, ainda deitada na cama ou deixando-o de presente sobre os lençóis. Antes que meus ouvidos sintonizem os sons deste planeta, ou que meu olhos consigam focar os objetos a meu redor, é o cheiro de minha esposa que me lembra que continuo vivo, pronto para mais um dia.

Não sei se o meu leitor tem o hábito de saborear, degustar, provar flores. Uma das flores deste arranjo tem que ser o primeiro beijo entre eu e minha esposa: lento, quieto, intenso, infinito. Senti-me transformado em um beija-flor: suspenso, parado no ar, sustentado pelos batimentos rapidamente invisíveis das asas de meu coração.

Para um arranjo, também é importante certas florzinhas miúdas, do campo, do dia a dia. Minha esposa oferece-as com liberalidade: sua voz animada, seu riso descomplicado, seu maravilhamento diante de coisas tão simples e obviamente maravilhosas.

Pronto?

Não, falta o cartão...

"Querida, entre tantas tesouras, alicates, tijolos e arames, eu renovo o meu compromisso de cultivar as nossas flores. Grato por sua companhia, paciência, insistência, carinho e amor. Você é tudo que eu poderia querer para a minha vida, e eu quero. Amo você. Sempre beijo,"

Agora é hora de entregar este arranjo de texto, este floreado de palavras. De mim para minha esposa. E também de todos os maridos para todas as suas esposas. "O amor não cabe em si". Não cabe em mim. Transborda peitos e estações. Transcende rotas e terras. É só receber, de mãos e peito abertos, o arranjo precioso que o marido Tempo fez para a sua esposa Terra.

Comentários

Alba Mircia disse…
Querido,

Adorei as flores, o cartão, a lembrança do primeiro momento - pra nos conhecermos melhor...; um almoço - Deus, quem é esse cara que tem um site de crônicas? O que será isso? Que bicho esquisito... Mas me atrai com tanta força... Será a música? Sei não... mas quero experimentar! É...do ar... beija-flor... suave e forte, um longo abraço de paz que só o amor dá conhecer.

E nesse encanto, "coragem" de cantar:
"É, só tinha de ser com você,
Havia de ser pra você,
Senão era mais uma dor,
Senão não seria o amor,"

Amo você, desde sempre,
(suspiros. assim a gente até acredita no amor, viu, casal? parabéns!!!)


* tudo entre parênteses pra soar baixinho sem atrapalhar esse momento lindo.;)
Que presente poder estar aqui e poder ler uma declaração de amor sem mistérios, sem clichês, mas com toda poesia que você, Eduardo, sabe "poetar" como poucos!!
Conheci você e a Alba juntos. Então, para mim, vocês não existem separados. E, apesar de nunca termos convivido, poucas vezes vi em casais tanta cumplicidade.
Vocês têm uma alma sorridente que transparece no brilho dos olhos.
De todo coração, sou feliz por saber que vocês receberam a dádiva de poder fazer feliz um ao outro.
Beijos
fernanda disse…
Ganhar um arranjo de flores já é tão romântico. Produzido pelo próprio remetente então, nem se fala. Ponto para o carnaval!

Feliz aniversário para vocês dois (mas não foi ontem que eu li a crônica das bodas de papel? Meu Deus...como passa o tempo).

Beijos

Fernanda
Zoraya disse…
que lindo que lindo que lindo! Vida longa e próspera para vocês e que sejam eternas fontes de inspiração amorosa um para o outro. Obrigada por distribuir flores para nós também.
Anônimo disse…
ô que querido!!! Cuide-se, pois ´tu estás em extinção ;/s
albir disse…
De mel, vocês dois. Lambuzem-se.

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